AS CAUSAS DO SOFRIMENTO

AS CAUSAS DO SOFRIMENTO

Há algum modo de pôr fim ao sofrimento? De acordo com o budismo, o sofrimento sempre estará presente como fenômeno global; no entanto, cada indivíduo tem a possibilidade de liberar-se dele.

Em qualquer lugar do universo em que exista a vida está presente o sofrimento: doenças, velhice, morte, separação dos entes queridos, coexistência forçada com aqueles que nos oprimem, privação de coisas de que necessitamos, confrontações com aquilo que tememos, e assim por diante.

Apesar de tudo isso, essa visão não equipara o budismo ao ponto de vista sustentado por alguns filósofos ocidentais, segundo o qual o sofrimento é inevitável e a felicidade está fora do nosso alcance. A razão para isso é simples: a infelicidade tem causas que podem ser identificadas e podemos agir sobre elas. Só quando identificamos erroneamente a natureza dessas causas é que podemos duvidar da possibilidade de cura.

O primeiro erro consiste em acreditar que a infelicidade é inevitável porque resulta da vontade divina ou de qualquer outro princípio imutável, e que, desse modo, sempre estará fora do nosso controle. O segundo equívoco é acreditar na ideia de que a infelicidade não tem causa identificável, que ela se abate sobre nós ao acaso e não depende da nossa vontade, não tem relação pessoal conosco. O terceiro engano origina-se de um fatalismo confuso, que retorna à ideia de que seja qual for a causa, o efeito será sempre o mesmo.

Se a infelicidade tivesse causas imutáveis, nós nunca poderíamos escapar dela. Seria então preferível, como diz o Dalai Lama, “não se atormentar com os problemas suplementares, ruminando sobre o próprio sofrimento. Seria melhor pensar em outra coisa, ir à praia e tomar uma boa cerveja!” Porque, se não houvesse nenhum remédio para o sofrimento, seria inútil torná-lo pior prestando mais atenção nele. Seria melhor aceitá-lo e distrair-se para senti-lo de modo menos cortante.

Qualquer coisa ativa deve em si ser mutável; nada pode existir de maneira autônoma e imutável. Surgindo de causas impermanentes, a infelicidade é em si sujeita à mudança e pode ser transformada. Não há sofrimento eterno ou primordial.
Todos temos capacidade de estudar as causas do sofrimento e gradualmente nos libertar delas. Todos temos o potencial para dissipar os véus da ignorância, de libertarmo-nos do egoísmo e dos desejos mal colocados que provocam a infelicidade, de trabalhar pelo bem dos outros e extrair a essência da nossa condição humana. O que importa não é a magnitude da tarefa, mas a magnitude da nossa coragem.

AS QUATRO VERDADES DO SOFRIMENTO

 

O primeiro obstáculo à realização da felicidade consiste em não reconhecer o sofrimento como aquilo que ele é. Com muita frequência, tomamos por felicidade coisas que não passam de sofrimento disfarçado. Essa ignorância nos impede de procurar as causas, e portanto, os remédios para nos curar do sofrimento. Somos como certos doentes que, inconscientes do mal que lhes aflige, não reconhecem os sintomas da enfermidade e negligenciam os cuidados médicos a que deveriam se submeter. Ou pior, como aqueles que se sabem sofredores, mas preferem praticar a política do avestruz em vez de seguir um tratamento.

Há mais de 2.500 anos, sete semanas depois de obter a Iluminação sob a árvore Bodhi, o Buda deu seu primeiro ensinamento no Parque das Gazelas, perto de Benares. Lá, ele ensinou as Quatro Nobres Verdades. A primeira verdade é a existência do sofrimento. Não só os sofrimentos óbvios que saltam aos olhos, mas também aqueles que, como vimos, existem de forma mais sutil. A segunda verdade diz respeito às causas do sofrimento: a ignorância que gera o desejo ardente, a maldade, o orgulho, e muitos outros pensamentos que envenenam nossa vida e a dos outros. Como esses venenos mentais podem ser eliminados, a cessação do sofrimento – a terceira verdade – é, portanto possível. A quarta verdade é percorrer o caminho que transforma essa possibilidade em realidade. Esse caminho é o processo pelo qual podemos usar todos os meios possíveis para eliminar as causas fundamentais do sofrimento. Em resumo, devemos:

Reconhecer o sofrimento,
Eliminar sua origem,
Realizar a sua cessação,
E para este fim praticar o caminho.

QUANDO A AFLIÇÃO TRANSFORMA-SE EM SOFRIMENTO

 

Do mesmo modo como fizemos uma distinção entre a felicidade e o prazer, também é importante clarificar a diferença entre a infelicidade, ou mais exatamente o “mal-estar”, e as dores efêmeras. Estas dependem de circunstâncias exteriores, enquanto a infelicidade, ou dukha, é um estado de profunda insatisfação que dura até mesmo quando há circunstâncias exteriores favoráveis. Por outro lado, podemos sofrer física ou mentalmente – sentindo tristeza, por exemplo – sem perder a sensação de plenitude, sukha, que se encontra na paz interior e no altruísmo. Aqui há dois níveis de experiência, que podem ser comparados respectivamente às ondas e às profundezas do oceano. Na superfície pode estar ocorrendo uma furiosa tempestade, mas as profundezas permanecem calmas. O sábio permanece sempre ligado a elas. Já aquele que só conhece a superfície e não percebe as profundezas fica perdido quando é golpeado pelas ondas do sofrimento.

Mas você pode perguntar: como posso deixar de me sentir abalado quando o meu filho está muito doente e sei que ele está para morrer? Como posso não sentir despedaçado quando vejo milhares de civis sendo deportados, feridos, mutilados, vítimas da guerra? Como se espera que eu faça cessar esse sentimento? Por que eu deveria aceitar algo assim? O mais sereno dos sábios ficaria abalado com isso. Quantas vezes não vi o Dalai Lama verter lágrimas pensando no sofrimento das pessoas que acabara de encontrar. A diferença entre o sábio e a pessoa comum é que ele pode manifestar um amor incondicional por aquele que está sofrendo e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para atenuar essa dor, sem que com isso a lucidez da sua própria visão da existência se abale. O essencial é estar disponível para os outros, sem ceder ao desespero quando os episódios naturais da vida e da morte seguem o seu curso.

Há muitos anos fiz amizade com um sique, um homem dos seus sessenta e tantos anos, com uma bela barba branca, que trabalha no aeroporto de Delhi. Sempre que estou em trânsito, tomamos uma xícara de chá e discutimos sobre a filosofia e espiritualidade, retomando a conversa exatamente do ponto em que havíamos deixado vários meses antes. Um dia ele me disse: “Meu pai morreu há algumas semanas. Estou desolado, sua morte me parece tão injusta! Não consigo compreendê-la nem aceita-la”. E, no entanto, o mundo em si não pode ser chamado de injusto – tudo o que faz é refletir as leis de causa e efeito – , sendo a impermanência, a precariedade de todas as coisas, um fenômeno natural.

Com a maior doçura possível, contei-lhe a história daquela mulher que, dominada pela dor causada pela morte do seu filho, veio encontrar-se com o Buda para pedir-lhe que o fizesse voltar à vida. O Buda lhe disse que, para fazer isso, necessitava de um punhado de terra proveniente de uma casa onde nunca houvesse ocorrido nenhuma morte. Tendo visitado todas as casas na vila e vendo que todas tinham conhecido a perda e o luto, a mulher voltou ao Buda, que a confortou com palavras de amor e sabedoria.

Também contei a ele a história de Dza Mura Tulku, um mestre espiritual que viveu no Tibete oriental no começo do século XX. Ele havia constituído família e ao longo de toda a sua vida sentiu profunda afeição por sua mulher, uma afeição que era recíproca. Ele não fazia nada sem ela e sempre dizia que, se a perdesse, não conseguiria viver por muito tempo. Ela faleceu repentinamente. Os amigos e discípulos do mestre correram para ficar ao seu lado. Lembrando das palavras que eles tinham-no ouvido falar com tanta frequência, ninguém ousava dar-lhe a notícia. Por fim, com muito tato, um discípulo disse ao mestre que a sua esposa estava morta.

A trágica reação que eles temiam não aconteceu. O mestre olhou para eles e disse: ”Por que vocês estão assim tão consternados? Quantas vezes eu lhes ensinei que os fenômenos e seres são impermanentes? Até o próprio Buda teve que deixar o mundo”. Mesmo sentindo uma ternura profunda por sua esposa, e apesar da grande tristeza que provavelmente o invadiu, deixar-se consumir pela dor não teria acrescentado nada ao seu amor por ela, ao contrário. Era mais importante para ele orar com calma pela falecidade e ofertar a ela essa serenidade.

Ficar obcecado por uma situação ou pelas lembranças deixadas por uma pessoa amada que partiu, a ponto de ser paralisado pela dor por meses ou anos a fio, não é prova de afeição, mas de um apego que não é fonte de nada que seja bom nem para os outros nem para si mesmo. Se pudermos aprender a reconhecer que a morte faz parte da vida, a angústia gradativamente cederá lugar à compreensão e à paz. “Não creia que você me presta uma grandiosa homenagem se deixar que a minha morte se torne o grande evento da sua vida. O melhor tributo que você pode dedicar à sua mãe é continuar a ter uma vida rica e feliz”. Essas palavras foram ditas por uma mãe ao seu filho alguns instantes antes de morrer.

Assim, a forma como vivemos essas ondas de sofrimento depende da nossa atitude. Portanto, é sempre melhor preparar-se para os sofrimentos que estamos sujeitos a encontrar – alguns dos quais são inevitáveis, como a doença, a velhice e a morte – em vez de sermos pegos desprevenidos e afundarmos na angústia. Uma dor física ou moral pode ser intensa sem com isso destruir a nossa perspectiva positiva da existência. Uma vez que tenhamos obtido uma certa paz interior, é mais fácil manter a nossa firmeza e coragem ou recobrá-las logo, mesmo quando somos confrontados por circunstâncias externas difíceis.

Esta paz interior vem por que a desejamos? É pouco provável. Não ganhamos a vida só por desejar ganhá-la. Da mesma maneira, a paz é um tesouro da mente que exige algum esforço para ser conquistado. Se nos deixarmos afundar em nossos problemas pessoais, por mais trágicos que sejam, só aumentaremos as nossas dificuldades e nos tornaremos um peso para aqueles que estão ao nosso redor. Se a nossa mente se acostuma a dar importância à dor que os eventos ou pessoas nos infligem, um dia o incidente mais trivial nos causará uma dor infinita. Como a intensidade desse sentimento aumenta com o hábito, tudo que nos acontecer acabará por nos afligir, e a paz não encontrará mais lugar dentro de nós. Todas as aparências assumirão um caráter hostil e nos rebelaremos amargamente contra o nosso destino, chegando a ponto de duvidar do próprio sentido da vida. É essencial adquirir uma certa paz interior de modo que, sem ferir a nossa sensibilidade, o nosso amor e o nosso altruísmo, possamos saber nos conectar com as profundezas do nosso ser.

Os aspectos mais atrozes do sofrimento – a miséria, a fome, os massacres – costumam ser menos visíveis nos países democráticos, onde o progresso material permitiu remediar alguns males que continuam a afligir os países pobres e politicamente instáveis. Mas os habitantes deste “melhor dos mundos” parecem ter perdido a capacidade de aceitar os sofrimentos inevitáveis que são as doenças e a morte. É comum, no Ocidente, considerar o sofrimento como uma anomalia, uma injustiça ou uma derrota. No Oriente, ele é menos dramatizado e visto com muita coragem e tolerância. Na sociedade tibetana, não é raro ver pessoas fazendo brincadeiras junto à cabeceira de um morto, o que pareceria chocante no Ocidente. Isso não é sinal de falta de afeição, mas da compreensão da inelutabilidade de provações como essas, e também da certeza de que existe um remédio interior para o tormento e a angústia de se encontrar sozinho.

Aos olhos de um ocidental, muito mais individualista, tudo o que perturba, ameaça e finalmente destrói o indivíduo constitui um mundo por si só. No Oriente, onde prevalece uma visão mais holística do mundo e onde se dá uma importância maior às relações entre todos os seres, bem como à crença em um continuum de consciência que renasce, a morte não é um aniquilamento, mas uma passagem.

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EXERCÍCIO Treinamento: a troca entre felicidade e sofrimento

Comece por gerar um forte sentimento de cordialidade, calor humano, bondade e compaixão por todos os seres. Imagine então aqueles que estão passando por um sofrimento similar ao seu, ou pior. Ao expirar, visualize que, por meio da sua respiração, você envia a eles toda a felicidade, vitalidade, boa sorte, saúde e assim por diante, sob a forma de um néctar branco, fresco e luminoso.
Veja-os absorvendo totalmente esse néctar, que lhes alivia a dor e lhes ajuda a realizar as suas aspirações. Se a vida deles corre risco de terminar logo, imagine que ela se prolonga; se estão doentes, imagine-os curados; se estão pobres ou abandonados, imagine que obtêm tudo o que precisam; se estão infelizes, que estão cheios de alegria.

Quando você inspirar, visualize o seu próprio coração como uma esfera brilhante e luminosa. Imagine que você está tomando para si, sob a forma de uma nuvem cinza, a doença, a confusão e os venenos mentais dessas pessoas, e que tudo isso desaparece na luz branca do seu coração, sem restar nada. Isso transformará tanto o seu sofrimento quanto o deles. Não há motivo para pensar que esse processo venha trazer-lhe qualquer peso ou carga. Ao tomar para si e dissolver o sofrimento deles, sinta grande felicidade, sem apego algum.

Você também pode imaginar que o seu corpo se multiplica em incontáveis formas que viajam pelo universo, transformando-se em roupas para os que sentem frio, comida para os famintos, ou abrigo para os que não têm teto.

Essa visualização é um meio poderoso para desenvolver a benevolência e a compaixão. Pode ser feita a qualquer momento, durante as suas atividades diárias. Ela não requer que você negligencie o seu próprio bem-estar; ao contrário, permite que você adapte a sua reação ao sofrimento inevitável, conferindo-lhe um novo valor. Na verdade, identificar claramente a sua aspiração ao bem-estar é o primeiro passo na direção de sentir uma empatia genuína pelo sofrimento alheio. Além disso, essa atitude aumenta significativamente o seu entusiasmo e a sua prontidão para trabalhar pelo bem dos outros.

Trecho do livro ”Felicidade – A pratica do Bem ESTAR”

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