julho 31

Budismo Essencial A Arte de Viver o Dia-a-Dia: A Felicidade

“Sem uma natural felicidade interior (uma sensação de alegria, despreocupação e bem-estar que não depende de condições externas, como sua família, amigos, posses ou o clima), nunca seremos verdadeiramente felizes.

Vamos desperdiçar nossas vidas correndo atrás disso e daquilo, cheios de excitação por qualquer pessoa ou situação nova. Então sentiremos uma felicidade superficial por um curto momento, que se desfará e nos deixará com uma sensação de vazio novamente, e aí buscaremos alguma outra coisa.

Então, para encontrarmos felicidade verdadeira e uma vida satisfatória, primeiro precisamos de uma base incondicional de felicidade”

–Kyabgön Phakchok Rinpoche

Todos os homens, sem exceção, desejam ter uma vida feliz e se esforçam para conquistá-la. Alcançar a liberdade e a igualdade significa, em última análise, viver uma vida feliz. Muitas guerras foram travadas com esse propósito. Até parece que toda a história humana é a história da luta pela conquista da felicidade. Todos os nossos projetos dirigem-se para esse objetivo, todas as nossas energias são despendidas para alcançá-lo. Parece que a felicidade é o objetivo último da vida. Vamos examinar o que é essa felicidade que todos nós buscamos, e o caminho que procuramos para conquistá-la.

kids meditatingO que é a felicidade? Precisamos conhecer com clareza o objetivo da nossa busca. Se não o conhecemos, nossos esforços talvez sejam em vão. Os antigos gregos pensavam que a felicidade era o bem. Mas, na Idade Média e na Idade Moderna, o significado formal de Aristóteles – o bem é a felicidade – foi alterado para o significado mais materialista de que a felicidade é o prazer ou a ausência de dor. John Stuart Mill, em sua obra O Utilitarismo, afirma: “Por felicidade, entende-se o prazer e a ausência da dor; por infelicidade, a dor e a ausência de prazer”. Stuart Mill estabelece diferenças qualitativas para o prazer. John Dewey faz distinção entre felicidade e prazer, afirmando que a felicidade é permanente e universal, um sentimento do ser como um todo, enquanto que o prazer seria transitório e relativo, um sentimento de alguns aspectos do ser. Aristóteles afirma que o bem do homem – a felicidade – é uma atividade da alma de acordo com a virtude; ou, se houver mais de uma virtude, então a felicidade estará de acordo com a melhor e mais perfeita virtude. Já Spinoza afirma que a felicidade não é o prêmio da virtude, mas sim a própria virtude.

Em sânscrito, a felicidade é chamada de sukha. A sukha inclui tanto o estado relativamente estático a que damos o nome de felicidade quanto a momentos conscientes desse estado, ao qual nossa psicologia se refere como um sentimento prazeroso ou agradável. A sukha aplica-se igualmente à saúde física, ao bem-estar material e à beatitude espiritual.

O budismo divide em três o sentimento: sukha, felicidade; dukha, dor; e adukhamasukha, sentimento neutro.

O sentimento neutro é idêntico à felicidade – ou seja, à felicidade do tipo mais sutil. Aos prazeres e à felicidade que têm origem nos cinco sentidos, chamamos de felicidade dos desejos mundanos. A espécie mais sutil de alegria surge em conexão com a prática do dhyana (meditação). No último estágio do dhyana, todos os sentimentos positivos, alegria ou melancolia, fundem-se no sentimento neutro ou indiferença; a perfeita clareza da mente é alcançada e a ignorância é banida, de modo que a consciência fica em estado de completa equanimidade e clareza mental. Sidgwick afirma que a felicidade budista é um hedonismo universal, porque ela não é egoísta nem altruísta. A missão de Buda não era apenas superar a dificuldade, mas também alcançar o bem e a felicidade de todos os seres: trazer felicidade para si mesmo e para os outros. No budismo, o esforço em direção a um objetivo é felicidade – em contraposição aos ascetas hindus que tudo sacrificam por um objetivo.

07-11-16.BuddhaTalkOk2Vamos agora trazer este tema para o nosso dia-a-dia. Alcançamos a felicidade de muitas maneiras na nossa vida diária. No entanto, podemos dividi-la em três categorias: a felicidade física, a material e a espiritual. Por física, quero dizer que a pessoa é feliz porque é saudável, simpática ou bonita. Em termos materiais, ela é feliz porque é rica, mora numa boa casa, tem um belo carro, muitas roupas, jóias e uma despensa bem abastecida. A felicidade mental ou espiritual está na amizade e no amor. A felicidade é criada quando a pessoa recebe honras, louvores, simpatia, conforto, etc.

Estas condições de felicidade dependem de causas externas. A felicidade é alcançada pela posse de alguma coisa ou pelo recebimento de alguma coisa. Portanto, quando a causa da felicidade deixa de existir ou é destruída, a felicidade também desaparece. Ela está além do nosso controle. Vejamos alguns exemplos. A sua felicidade física: você é jovem e bonito, é simpático, tem boa saúde e é forte. Com efeito, você é feliz e grato por isso. Mas, vamos supor que você sofre um acidente e fica aleijado, ou doente; a sua felicidade não pode mais depender da sua saúde. E á claro que, com o passar dos anos, sua beleza e vigor irão se desvanecer. Portanto, não se pode depender da saúde, da beleza e do vigor para a felicidade verdadeira e eterna, embora estes sejam fatores importantes da nossa felicidade. Devemos alcançar uma outra felicidade que não a física, a fim de podermos desfrutar a vida e ser felizes e gratos, mesmo que estejamos doentes, velhos ou aleijados.

Kenkô, famoso monge budista e autor de Tsurezuregusa, disse certa vez: “não vale a pena termos um amigo que nunca experimentou a doença”. Uma pessoa saudável, que nunca esteve doente, não compreende o verdadeiro sentido da compaixão e da bondade. Uma pessoa assim tão saudável tende a tornar-se obstinada e a criar atrito e discórdia. Num caso desses, a saúde não é uma fonte de felicidade, mas sim de problemas. Também é evidente que a felicidade material é incerta e duvidosa. Nesta nossa época regida pelo culto à riqueza, o dinheiro é tudo. As pessoas acreditam que o “onipotente cifrão” pode comprar tudo e todos. Na verdade, o dinheiro é muito importante neste nosso mundo tão consciente dos valores monetários. Mas a felicidade que é comprada com dinheiro irá se dissolver quando o dinheiro acabar. O dinheiro trás felicidade, sim, mas ao mesmo tempo traz miséria. Logo, o dinheiro mão é o caminho para a felicidade. Um belo carro, uma boa casa, boa comida, roupas finas e outros pertences estão na mesma categoria. Estas coisas são importantes e trazem felicidade, mas são duvidosas e incertas; e muitas vezes, trazem o sofrimento através da destruição do roubo ou da inveja. Tampouco podemos depender da felicidade trazida pelo amor, pela amizade, pela simpatia e pela bondade dos amigos, pois o amor freqüentemente se transforma em ódio e os amigos em inimigos, já que todas essas coisas são relativas. A felicidade trazida por meios físicos, materiais e mentais é alcançada através de causas externas. E é exatamente por isso que não se pode depender dela. Devemos, portanto, procurar as causas internas da felicidade, não suas causas externas.

O budismo nos ensina a olhar o âmago das coisas, em vez de olhar à volta delas. Devemos olhar para o interior de nós mesmos, a fim de vermos o que cria a felicidade. Por exemplo, ser amado é felicidade, mas amar também é felicidade. É fonte de felicidade receber-se alguma coisa; mas também dar e compartilhar é felicidade. A felicidade do doador é mais rica e permanente que a do receptor. No espírito do verdadeiro dar, compartilhar e amar, não há limites. A felicidade é o próprio amar e compartilhar, não necessariamente seu resultado. A verdadeira satisfação do trabalho é o próprio ato de trabalhar, não o resultado do trabalho. A verdadeira felicidade não é aquela que recebemos de fora, mas sim aquela que é criada dentro de nós. O homem moderno em geral é um “buscador de resultados”. Sua atitude é a de fazer alguma coisa se esta lhe trouxer algum benefício; pois, se não obtiver lucro, de que adianta fazer alguma coisa? Os buscadores de resultados são os buscadores de lucro. Em outras palavras, o homem moderno pensa que o fim é mais importante que os meios. Alguém disse que duas ideologias modernas estão representadas por Stálin e Gandhi: o caminho de Gandhi é que os meios são tão importantes quanto o fim, enquanto, para Stálin, o fim é tão importante que justifica os meios. Os budistas aprendem que todos os passos e todos os meios são muito importantes. Cada meio é, em si, um fim. Para o artista, o músico e o escultor, o trabalho em si é prazer e felicidade; mas, para aquele que só pensa em dinheiro, o trabalho nada mais é que um meio de ganhar dinheiro. Trabalho significa dor e sofrimento; o sofrimento precisa ser compensado gastando dinheiro: esta é a vida moderna. Sinto muita pena das pessoas que vivem esse tipo de vida. A pessoa mais feliz e afortunada é aquela que gosta de seu trabalho, além de ganhar dinheiro com ele.

O verdadeiro caminho para a felicidade é a percepção da nossa própria vida. É o desabrochar do ser como um todo. O verdadeiro caminho para a felicidade está no dar, não na felicidade do receber. Precisamos encontrar o caminho do amar, não o de sermos amados. A vida do eterno dar, amar, compartilhar e apreciar o trabalho é sempre criativa e infinita, enquanto os outros caminhos para a felicidade levam a fracassos e desapontamentos. A verdadeira felicidade não nos é dada – nós a criamos. Se você é infeliz, não culpe os outros ou o meio ambiente. É a sua mente, a sua atitude, que o fazem sentir-se miserável. Pode ser útil mudar de casa ou de emprego, mas essa não é a cura completa para o seu problema e a sua infelicidade. A atitude correta e uma mente clara e correta são o caminho para a felicidade.

Budismo Essencial

UMA MANEIRA DE SER

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Trecho do Livro ‘Felicidade – A pratica do Bem Estar”

Lembro-me de uma tarde em que estava sentado nos degraus do nosso monastério no Nepal. As tempestades da época das monções haviam transformado o pátio em uma vasta extensão de água barrenta e tínhamos construído um caminho de tijolos para atravessá-lo. Uma amiga chegou à beira da água, observou a cena com uma expressão de desgosto e começou a travessia, reclamando a cada passo que dava. Quando chegou onde eu estava, olhou para trás e disse: “Argh… e se eu tivesse caído naquela imundice? Tudo é tão sujo neste país…” Como eu a conhecia bem, concordei, esperando oferecer-lhe algum conforto com minha simpatia silenciosa. Poucos muitos depois, Raphaèle, outra amiga, chegou à trilha que atravessava o charco. “Hop, hop, hop”, cantou, pulando de um tijolo para outro, e, ao alcançar a terra seca, gritou: “Como isso é divertido”! Com os olhos brilhando de alegria, acrescentou: “A melhor coisa nas monções é que ficamos livres da poeira”. Duas pessoas, dois modos de olhar para a mesmo situação. Seis bilhões de seres humanos, seis bilhões de mundos.

tumblr_lwcxt5Z1WT1qbyk59o1_500Raphaèle contou-me de um homem que conhecera na primeira vez que visitara o Tibete, em 1986, que tinha passado por momentos aterradores durante a invasão chinesa. “Ele me convidou para sentar num banco e serviu-me chá, que guardava numa grande garrafa térmica. Era a primeira vez que falava com uma ocidental. Rimos muito, ela era adorável. As crianças se aproximavam e ficavam olhando para nós, admiradas, enquanto ele me enchia de perguntas. Contou-me, então, que fora prisioneiro dos invasores chineses durante doze anos, condenado a talhar pedras que seriam usadas em uma represa que estava sendo construída no vale Drak Yerpa. Essa construção era completamente inútil, já que o rio estava quase sempre seco! Todos os meus amidos haviam morrido de fome e exaustão a seu lado, um por um. Apesar do horror da sua história, não se percebia o menor traço de ódio em suas palavras ou de ressentimento em seus olhos, que brilhavam de bondade. Naquela noite, antes de adormecer, fiquei pensado em como alguém que tinha sofrido tanto podia parecer tão feliz”.

Aquele que tem paz interior não é mais esmagado pela derrota ou inflado pelo sucesso. Torna-se capaz de viver intensamente as suas experiências no contexto de uma serenidade vasta e profunda, já que compreende que elas são efêmeras e que é inútil apegar-se a elas. Não tem mais o sentimento de “perder as ilusões” quando as coisas vão mal e confrontam-se com a adversidade. Não mergulha na depressão, já que sua felicidade repousa em uma fundação sólida.

Um ano antes de sua morte em Auschwitz, a notável Etty Hillesum, uma jovem holandesa, afirmou: “Quando temos uma vida interior, não importa de que lado da cerca da prisão estamos… Já morri mil vezes em mil campos de concentração. Já conheço tudo. Não há nenhuma informação nova para me perturbar. De um jeito ou de outro, já conheço tudo. E, ainda assim, acho esta vida bela e rica de significado. A cada instante”

happy-monksBem-estar, é em essência um estado interior. Compreender isso é o prerrequisito, a chave para uma vida que vale a pena ser vivida. Que condições mentais destroem a nossa joie de vivre, e que condições a alimentam?

Mudar o modo de ver o mundo não ter um otimismo ingênuo ou uma euforia artificial com intenção de contrabalançar a adversidade. Enquanto formos escravos da insatisfação e da frustação que surgem da desordem que domina a nossa mente, será tão inútil dizer a si mesmo: “Sou feliz! Sou feliz!”, muitas e muitas vezes, quanto seria repintar um muro em ruínas. Buscar a felicidade não é olhar para a vida através de óculos cor-de-rosa ou cegar-se para a dor e as imperfeições do mundo. Nem é a felicidade tampouco um estado de exaltação que deva perpetuado a qualquer custo, mas sim, um processo de purgar as toxinas mentais, como o ódio e a obsessão, que envenenam a mente. É também aprender como colocar as coisas em perspectiva e reduzir a distância entre as aparências e a realidade. Para esse fim, devemos adquirir um conhecimento melhor sobre como a mente funciona e ter uma percepção mais precisa sobre a natureza das coisas, pois, no sentido mais profundo, o sofrimento está intimamente ligado a um mal-entendido sobre a natureza da realidade.

REALIDADE E CONHECIMENTO

Young Buddhist monksO que devemos entender por realidade? No budismo, essa palavra conota a verdadeira natureza das coisas, não modificada pelos construtos mentais que sobrepomos a ela. Essa abordagem escava um fosso entre a nossa percepção e a realidade, criando um conflito sem fim com o mundo. “Deciframos erradamente o mundo e dizemos que ele nos engana”, escreveu Rabindranath Tagore.8 Tomamos como permanente o efêmero e consideramos felicidade o que não passa de fonte de sofrimento: o desejo de riqueza, de poder, de fama, de prazeres obsessivos. Segundo Chamfort, “o prazer pode se apoiar na ilusão, mas a felicidade repousa sobre a verdade”.

Por conhecimento queremos dizer não o domínio de quantidade maciça de informação e aprendizagem, mas a compreensão da verdadeira natureza das coisas. Por causa dos nosso hábitos, percebemos o mundo exterior como uma série de entidades diferentes e autônomas, a que atribuímos características que cremos ser inerentes a elas. A nossa experiência diária nos diz que as coisas são “boas” ou “más”. O “eu” que as percebe nos aprece ser igualmente concreto e real. Este erro, que o budismo chama de ignorância, gera poderosos reflexos de apego e aversão que geralmente levam ao sofrimento. Como diz Etty Hillesum, tão concisamente: “O grande obstáculo é sempre a representação e não a realidade” 10 O mundo da ignorância e do sofrimento – chamado em sânscrito de samsara – não é uma condição fundamental da existência, mas um universo mental, baseado na nossa concepção errônea da realidade.

O mundo das aparências resulta da conjunção de um número infinito de causas e condições, sempre mutáveis. Como um arco-íris que se forma quando o sol brilha através de uma cortina de chuva e depois desaparece quando qualquer dos fatores contribuintes à sua formação não está mais presente. Os fenômenos existem de modo essencialmente interdependente e não têm nem existência durável nem autonomia. Tudo é relação, nada existe em si e por si mesmo, imune às forças de causa e efeito. Uma vez que esse conceito essencial é compreendido e internalizado, a percepção errônea que tínhamos do mundo dá lugar a um entendimento correto da natureza das coisas e dos seres. Isso é o verdadeiro conhecimento. Não se trata de um mero construto filosófico, mas procede de uma abordagem básica que nos permite ir eliminado a nossa cegueira mental e as emoções perturbadoras que ela produz, acabando assim com as principais causas do nosso sofrimento.

Cada ser tem em si mesmo o potencial para a perfeição, da mesma maneira que cada semente de gergelim tem o seu próprio óleo. Ignorância, neste contexto, significa não estar consciente desse potencial, como um mendigo que não sabe da existência de um tesouro enterrado sob seu barraco. Conhecer a nossa verdadeira natureza, e tomar posse desse tesouro esquecido, nos permite viver uma vida repleta de significado. Esse é o caminho mais seguro para encontrar a serenidade e deixar florescer o altruísmo genuíno.

Monk boys with umbrellas in Pagan, MyanmarExiste uma maneira de ser que subjaz a todos os estados emocionais e está presente na substância de que somos feitos, abrangendo todas as alegrias e sofrimentos que vêm a nós. Uma felicidade tão profunda que, como escreveu Georges Bernanos, “nada pode muda-la, como a vasta reserva de águas calmas abaixo de uma tempestade” . A palavra em sânscrito para esse estado de ser é sukha.

Sukha é o estado de plenitude e bem-estar duradouro que se manifesta quando nos libertamos da cegueira mental e das emoções aflitivas. É também a sabedoria que nos permite ver o mundo como ele é, sem véus ou distorções. É, por fim, a alegria de dirigir-se para a liberdade interior e a bondade amorosa que irradia em direção aos outros.

CONTINUE SEU TREINO DA MENTE, LENDO O POST ”FELICIDADE E PRAZER, A GRANDE CONFUSÃO”.

E TAMBÉM CONFIRA O POST ‘A PRATICA DA FELICIDADE”.

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