setembro 05

LIBERDADE E RENÚNCIA.

O GRANDE SALTO EM DIREÇÃO À LIBERDADE

Para um homem sobrecarregado, oprimido e que por muito tempo andou pelo mundo do sofrimento, que alívio é desembaraçar-se de seu fardo pesado e inútil.

LONGCHEN RABJAM RIMPOCHE

Ser livre é ser mestre de si mesmo. Para muita gente, essa maestria está ligada à liberdade de ação, de movimento e de opinião, e à oportunidade de atingir as metas estabelecidas para si mesmo. Essa convicção situa a liberdade principalmente fora de nós mesmos, sem tomar consciência da tirania dos pensamentos. Com efeito, há uma ideia muito difundida no Ocidente segundo a qual liberdade significa poder fazer tudo o que se queira e agir conforme cada um dos nossos impulsos. É uma ideia estranha, já que ao fazermos assim nos transformamos em joguete dos pensamentos que perturbam a nossa mente, como os ventos no topo de uma montanha, que dobram a relva em todas as direções.

            “Para mim, liberdade seria fazer tudo o que quero, sem que ninguém me impedisse e nem dissesse nada a respeito”, disse uma jovem inglesa entrevistada pela BBC. A liberdade anárquica, que tem como único objetivo a satisfação imediata dos desejos, pode trazer felicidade? Temos todas as razões para duvidar dessa proposição. A espontaneidade é uma qualidade preciosa contanto que não seja confundida com o caos e a agitação mental. Se permitirmos que, em nossa mente, a matilha do desejo, do ciúme, do orgulho ou do ressentimento fique livre para ter acessos de fúria, logo tomará conta de tudo, impondo-nos um universo prisional cada vez maior. As prisões irão se adicionando e combinando até minarem toda a alegria de viver. No entanto, um único espaço de liberdade interior basta para envolver toda a dimensão da mente. Um espaço vasto, claro e sereno, que dissolve todo tormento e nutre toda a paz.

            A liberdade interior é, em primeiro lugar, libertar-se da ditadura do “eu” e do “meu”, do “ser” cativo e oprimido, e do “ter” que invade tudo, deste ego que entra em conflito com tudo de que não gosta e busca desesperadamente se apropriar daquilo que cobiça. Saber encontrar o essencial e não se inquietar com aquilo que é acessório traz um profundo sentimento de contentamento, sobre o qual as fantasias do eu não têm nenhum poder. “Aquele que experimenta um contentamento assim”, diz o provérbio tibetano, “tem um tesouro na palma da sua mão”.

            Dessa maneira, ser livre significa se emancipar das aflições que dominam e obscurecem a mente.  Significa tomar a vida na nossa própria mão, em vez de abandoná-la às tendências criadas pelo hábito e pela confusão mental. Se um marinheiro solta o timão e deixa as velas da embarcação ao sabor do vento, o navio ao sabor das correntes, isso não se chama liberdade – chama-se ficar à deriva. Liberdade, aqui, significa ter o leme nas mãos e velejar na direção que escolhemos.

OS MEANDROS DA INDECISÃO

No Tibete, conta-se a história de um cão que vivia entre dois monastérios separados por um rio. Um dia, ouvindo o sino que batia na hora do café da manhã no primeiro monastério, pôs-se a nadar para atravessar o rio. A meio caminho, ouviu bater o sino do segundo monastério e voltou atrás. No fim, não chegou a tempo para fazer nenhuma das refeições.

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A indecisão pode também se opor a toda realização. Atormentados pelos cenários que poderiam advir, somos incapazes de tomar uma decisão. E é só decidirmos agir que já nos sentimos novamente mergulhados na dúvida: não seria melhor a outra opção a esta que acabamos de escolher? A expectativa e a apreensão que nos dilaceram muitas vezes expressam uma insegurança profunda diante de um futuro povoado de esperanças e temores. A indecisão e o imobilismo que essa insegurança provoca constituem um obstáculo de primeira grandeza à busca da felicidade. Os tormentos não sinalizam uma reflexão sábia ou uma dúvida de boa qualidade, mas uma hesitação paralisante e uma ruminação ansiosa, estreitamente ligadas ao sentimento de importância do eu.

            Quando nos preocupamos excessivamente conosco, ficamos divididos entre a esperança e o medo. Esses sentimentos monopolizam a mente e obscurecem o julgamento, perpetuamente dilacerado entre numerosas “soluções”. Sofremos, como diz Alain, dessa “agitação que nos tira o sono e vem somente de resoluções vãs, que não decidem nada e que são lançadas pouco a pouco no nosso corpo, e o fazem pular como um peixe fora da água”.

            Para quem está menos obcecado por si mesmo, é mais fácil examinar objetivamente os prós e contras de uma situação, tomar uma decisão e executá-la com determinação. Quando a escolha não é evidente, se conservarmos um certo distanciamento dos acontecimentos poderemos seguir ser fisgados  pela irresolução ou pelo medo. O sábio, diz-se, age pouco, mas uma vez que tenha decidido agir, sua resolução é como uma pérola incrustada na rocha.

            Na vida diária, essa liberdade permite estar aberto aos outros e ser pacientes com eles. Ao mesmo tempo, pode-se dar continuidade ao compromisso com a direção que escolhemos dar à nossa vida. De fato, é essencial ter senso de direção. Ao fazer um trekking pelo Himalaia, muitas vezes é necessário andar por dias ou até por semanas. Sofremos com o frio, com a altitude, com as tempestades de neve, mas como a cada passo estamos mais próximos do nosso destino, a alegria está sempre no esforço necessário para atingi-lo. Mas se nos perdemos e nos vemos andando sem rumo, em uma floresta ou um vale desconhecido, nossa coragem desaparece de repente, o peso da exaustão e da solidão fica esmagador, a ansiedade aumenta, e cada passo torna-se um sofrimento. Não temos mais vontade de andar, queremos nos sentar em desespero. Da mesma forma, a ansiedade que em certas pessoas vivenciam talvez provenha de uma falta de direção na existência, de não terem tomado consciência do potencial interior para a mudança que têm dentro de si.

            Compreender que não somos nem perfeitos nem completamente felizes não é uma fraqueza. É um reconhecimento muito saudável que nada tem a ver com autopiedade, com uma visão pessimista da vida ou com falta de confiança em si mesmo. Conscientizar-se disso leva a uma nova apreciação das propriedades da vida, e a uma onda de energia que o budismo chama de renúncia – uma palavra que costuma ser mal compreendida e que, na realidade, expressa um profundo desejo de liberdade.

O PARADOXO DA RENÚNCIA

Para muitas pessoas, a ideia da renúncia e do desapego evoca uma descida à escura masmorra do ascetismo e da disciplina – privar-se de modo deprimente dos prazeres da vida. Não fazer isso ou aquilo. Uma série de injunções e interdições que restringem a nossa liberdade de gozar a vida. Diz um provérbio tibetano: “Falar com alguém sobre a renúncia é como bater no focinho de um porco com uma vara. Ele não gosta disso nem um pouco”.

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            No entanto, a renúncia verdadeira lembra muito mais a situação de um pássaro que se lança pelo céu ao abrirmos a porta da sua gaiola. De repente, as infindáveis preocupações que oprimiam amente cessam de existir, permitindo a livre expressão do potencial interior. Somos como fatigados caminhantes, carregando pesados sacos cheios de provisões e de pedras. Não seria razoável colocar a bagagem no chão por alguns momentos, retirar o que não precisamos e aliviar o peso que teremos de carregar?

            A renúncia não consiste, portanto, em privar-se daquilo que nos traz alegria e felicidade – isso seria absurdo -, mas pôr fim àquilo que nos causa tormentos inumeráveis e incessantes. É ter coragem de se livrar de qualquer dependência das próprias causas do sofrimento. É decidir “sair do buraco”, desejo que só pode nascer da observação atenta do que acontece dentro de si e na vida cotidiana. Para livrar-se das causas do sofrimento, precisamos primeiro identificar e reconhecer essas causas, depois nos tornarmos conscientes delas na nossa vida diária. Se não dedicarmos a isso o tempo necessário, facilmente poderemos nos enganar, dando pouca importância às causas relevantes.

            A renúncia, em suma, não vem de dizer “não” a tudo o que é prazeroso, de deixar de tomar sorvete de morango ou de tomar um bom banho quente depois de uma longa caminhada nas montanhas. Vem de perguntar-se, em relação a uma série de aspectos da vida: “Isto me fará mais feliz?” A felicidade genuína – ao contrário da euforia artificialmente produzida – se mantém nos altos e baixos da vida. Em vez de interditar o nosso desejo, abraçamos aquilo que há de mais desejável. Renunciar é ter ousadia e a inteligência de examinar aquilo que costumamos considerar prazeres para determinar se eles realmente nos trazem bem-estar. Aquele que renuncia não é um masoquista que considera ruim tudo que é bom. Quem seria capaz de suportar isso? A pessoa que renuncia dedicou o tempo necessário para olhar para dentro de si e contatou que não precisa se agarrar a certos aspectos da sua vida.

LIVRE DO PASSADO, LIVRE DO FUTURO

 Certo dia, um tibetano foi visitar um velho sábio (que, por coincidência, eu também viera encontrar) na cidade de Ghoom, próxima a Darjiling, na Índia. Ele começou contando a esse sábio todos os seus infortúnios passados, em seguida passando a fazer uma lista de tudo o que temia quanto ao futuro. Durante todo o tempo, o velho sábio ficou com toda a calma assando batatas em um pequeno braseiro que estava no chão à sua frente. Passado algum tempo, disse ao seu queixoso visitante: “De que adianta preocupar-se com coisas que não existem mais e com coisas que ainda não existem?” Perplexo, o visitante parou de falar e permaneceu calado por um bom tempo ao lado do sábio – que, de quando em quando, lhe estendia uma batata quente e tostada.

            A liberdade interior nos permite saborear a lúcida simplicidade do momento presente, livre do passado e emancipado do futuro. Libertar-nos da invasão das memórias do passado não significa que sejamos incapazes de tirar lições úteis da própria experiência. Libertar-nos do medo do futuro não nos torna incapazes de nos aproximarmos dele com lucidez, mas nos salva de atolar em tormentos inúteis.

            Uma liberdade assim tem um componente de clareza mental, de transparência e de alegria que é bloqueada pela proliferação habitual das ruminações e dos fantasmas do passado. Ela nos permite aceitar as coisas com serenidade, sem por isso cair na passividade ou na fraqueza. Ela é também uma maneira de utilizar todas as circunstâncias da vida, tanto favoráveis quanto as adversas, como catalisadores para a mudança pessoal. Essa liberdade nos ajuda a nos livrar da arrogância quando essas circunstâncias são favoráveis, e a depressão quando não são.

A INTELIGÊNCIA DA RENÚNCIA

 A renúncia é uma maneira sensata de tornarmos a vida em nossas próprias mãos, ou seja, de ficarmos fartos de sermos manipulados como bonecos pelo egoísmo, pela renhida luta pelo poder e as posses, pela sede de prestígio e pela infindável busca do prazer. Aquele que pratica a renúncia é perfeitamente são e compreende tudo o que acontece ao seu redor. Não foge do mundo porque é incapaz de controlá-lo, mas por perder o interesse em manter preocupações fúteis. A sua abordagem é antes de tudo pragmática. Quantos seres confusos, apaixonados ou tímidos se perderam nos desvios de uma vida mais rápida do que um gesto furtivo? “Por delicadeza, perdi minha vida”, escreveu Rimbaud. A renúncia não é sinal de fraqueza, mas de ousadia.

 A renúncia comporta também um delicioso gosto de simplicidade e paz profunda. Uma vez que você a experimenta, torna-se cada vez mais fácil. Não se trata de forçar-se a renunciar, porque um movimento assim estaria fadado ao fracasso. Para se desapegar de alguma coisa, primeiro você deve ter claras em sua mente quais são as vantagens da renúncia e sentir uma profunda aspiração de se liberar daquilo a que está prestes a renunciar. Feito isso, a renúncia será vivida como um ato de liberação, não como uma obrigação dolorosa.

Sem com isso negligenciar aqueles com quem compartilhamos a nossa vida, chega o momento de sair da interminável montanha-russa em que se alternam a felicidade e o sofrimento. E o viajante fatigado, ou o expectador embriagado de imagens e de ruídos, retira-se, buscando o silêncio. Ao fazer isso, não rejeitamos nada, mas simplificamos tudo. 

“A nossa vida é desperdiçada em detalhes… Simplifique, simplifique”, escreveu o pensador americano David Henry Thoreau. Renúncia envolve simplificar os nossos atos, a nossa fala e os nossos pensamentos para livrar-se do supérfluo. Simplificar as nossas atividades não significa mergulhar na preguiça, mas adquirir uma liberdade cada vez maior e combater o aspecto mais sutil da inércia – o impulso que nos leva a, mesmo sabendo o que realmente conta na vida, preferir nos envolver em mil atividades secundárias e triviais, uma após a outra.

Simplificar a fala significa diminuir o fluxo de palavras inúteis que saem de nossa boca. É, acima de tudo, abster-se de dirigir aos outros observações negativas ou danosas, de lançar flechas que atingem o coração alheio. As conversações comuns, lamentava o eremita Patrul Rimpoche, são “ecos de ecos”. Basta ligar a TV ou ir a qualquer reunião social para ser engolfado por uma torrente de palavras que, na maior parte das vezes, não só são inúteis, como exacerbam a cobiça, o ressentimento e a vaidade. Não se trata de isolar-se em um silêncio arredio e desdenhoso, mas de tomar consciência do que é uma fala adequada e o que representa o valor do tempo. A fala adequada evita as mentiras egoístas, as palavras cruéis e as fofocas, cujo efeito é nos distrair e semear a discórdia. É sempre adaptada às circunstâncias, suave ou firme conforme a necessidade, e provém de uma mente controlada e altruísta.

Ter uma mente simples não é o mesmo que ser simplório. Ao contrário, a simplicidade mental é acompanhada pela lucidez e pela clareza do pensamento. Como a água limpa e transparente, que nos permite ver até o fundo do lago, a simplicidade permite ver a natureza da mente por trás do véu dos pensamentos errantes.

A pessoa simples vive da mesma maneira que respira, sem grandes esforços ou glórias, sem grandes afetações e sem vergonha. […] S simplicidade não é uma virtude que se deve adicionar à existência. É a existência em si, desde que nada lhe seja adicionado […]. Sem outra riqueza que tudo. Sem outro tesouro que nada. A simplicidade é liberdade, leveza, alegria, transparência. Tão simples quanto o ar, livre como o ar. […] A pessoa simples não se leva demasiadamente a sério, nem faz de qualquer coisa uma tragédia. Ela segue o caminho de bom humor, com o coração leve, a alma em paz, sem um objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é o seu reino, e isso lhe basta. O presente é a sua eternidade, e a pessoa se delicia com ele. Não precisa provar nada, já que não precisa manter as aparências, e não busca nada, já que tudo está diante de si. Há algo mais simples do que a simplicidade? Mais leve? A simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos. André Comte-Sponville 

LIVRE PARA OS OUTROS

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A liberdade como fonte de felicidade e plenitude duradoura tem uma ligação estreita com o altruísmo. De que vale a liberdade que traga benefícios apenas para nós mesmos? No entanto, para respeitar o direito das pessoas de evitar o sofrimento, é preciso estarmos, nós próprios, liberados dos grilhões do egoísmo. Para ajudar melhor os outros, devemos começar por mudar a nós mesmos.

Ser livre quer dizer também ser capaz de seguir um caminho de transformação interior. Para este fim, é preciso vencer não só a adversidade exterior, como também, e mais ainda, os nossos inimigos interiores: a preguiça, a dispersão mental e todos os hábitos que nos distraem ou fazem com que adiemos a nossa prática espiritual.

Como vimos, os prazeres, de início atraentes, quase sempre se transformam no seu oposto. O esforço exigido pela jornada espiritual e pelo processo de libertar-se do sofrimento segue uma progressão inversa. Às vezes árduo no começo, ele gradualmente se torna fácil e inspirador, e pouco a pouco traz um sentimento de realização que não pode ser substituído por nada. O seu aspecto austero dá lugar a uma satisfação profunda, que os estados de dependência ou de saciedade não podem alcançar. Sukha* constitui um tipo de armadura tão flexível quanto invulnerável. Conforme um sábio tibetano: “É fácil para um pássaro ferir um cavalo que já tem costas machucadas, assim como é fácil para as circunstâncias ferirem alguém que tem medo, mas elas não têm nenhum poder contra as naturezas estáveis.” Tal realização merece o nome de liberdade.

  Trecho do livro ”Felicidade – A pratica do Bem Estar” de Matthieu Ricard

*Sukha é o estado de plenitude e bem-estar duradouro que se manifesta quando nos libertamos da cegueira mental e das emoções aflitivas. É também a sabedoria que nos permite ver o mundo como ele é, sem véus ou distorções. É, por fim, a alegria de dirigir-se para a liberdade interior e a bondade amorosa que irradia em direção aos outros.

RENÚNCIA

trecho do livro ”O que faz você ser budista?”

  Aqueles que não correm atrás de elogios e ganhos, que não se esquivam de críticas e perdas, podem ser estigmatizados como anormais ou mesmo loucos. Quando observados a partir de um ponto de vista convencional, os seres iluminados podem parecer loucos porque não negociam, não são seduzidos nem influenciados por ganhos materiais, não ficam entediados, não procuram emoções baratas, não têm aparências a manter, não se enquadram nas regras de etiqueta, nunca recorrem à hipocrisia para ganho pessoal, nunca fazem nada para impressionar os outros e não mostram seus talentos e poderes apenas para se exibir. No entanto, se for para benefício dos outros, esses são capazes de fazer qualquer coisa, desde ter modos perfeitos à mesa, até ser o diretor-presidente de uma grande empresa. Nos 2.500 anos de história do budismo, provavelmente houve inúmeros seres iluminados que jamais foram identificados, ou que foram proscritos por serem insanos. Bem poucos foram admirados por possuírem o que chamamos “sabedoria louca”. Mas, pensando bem, somos nós os verdadeiros insanos, babando por elogios que são como um eco, remoendo críticas e correndo atrás da felicidade.

Nem é preciso falar em ir além do tempo e do espaço; mesmo ir além de elogios e críticas parece fora do nosso alcance. Mas, quando começamos a entender, não só intelectual como emocionalmente, que todas as coisas compostas são impermanentes, o apego diminui. A convicção de que nossos pensamentos e posses são valiosos, importantes e permanentes começa a arrefecer. Se fôssemos informados de que só nos restam dois dias de vida, nosso comportamento seria diferente.

Não iríamos nos preocupar em guardar os sapatos enfileirados, passar a ferro as nossas roupas íntimas, ou acrescentar mais um perfume caro a uma já enorme coleção. Poderíamos continuar indo às compras, mas com uma nova atitude. Saber, ainda que só um pouco, que alguns dos nossos conceitos, sentimentos e objetos mais familiares existem apenas como um sonho, refina o nosso senso de humor; reconhecer o lado cômico da nossa situação poupa muito sofrimento. Continuamos a ter emoções, mas elas não nos enganam nem nos pregam peças. Podemos ainda nos apaixonar, mas sem medo de sermos rejeitados. Usamos nossos melhores perfumes e cremes faciais, em vez de guardá-los para uma ocasião especial. Assim, cada dia passa a ser especial.

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