setembro 19

AUTO-ESTIMA, EGO E COMPAIXÃO.

workaholic

DEPOIS DE QUASE DEZ ANOS ensinando em mais de vinte países ao redor do mundo, vi várias coisas estranhas e maravilhosas e ouvi várias histórias estranhas e maravilhosas de pessoas com as quais conversei em palestras ou que me procuraram para aconselhamento particular. O que mais me surpreendeu, entretanto, foi ver que as pessoas que viviam em lugares nos quais os confortos materiais eram amplamente disponíveis pareciam vivenciar um profundo sofrimento, similar ao que vi entre aqueles que viviam em lugares que não eram tão desenvolvidos em termos materiais. A expressão de sofrimento que testemunhei era diferente em alguns pontos do que estava acostumado a testemunhar na índia e no Nepal, mas sua força era palpável.

Comecei a sentir esse nível de infelicidade durante minhas primeiras visitas ao Ocidente, quando meus anfitriões me levavam para ver os grandes pontos turísticos de suas cidades. Na primeira vez que vi lugares como o Empire State Building e a Torre Eiffel, fiquei muito impressionado com o gênio dos arquitetos e engenheiros e com o nível de cooperação e determinação necessário para construir aquelas estruturas. Mas, quando subia nas estruturas para observar a cidade, encontrava minha visão bloqueada por cercas de arame farpado e toda a área patrulhada por guardas. Quando perguntava a meus anfitriões sobre os guardas e as cercas, eles me explicavam que as precauções eram necessárias para impedir que as pessoas se suicidassem pulando das alturas. Pareceu a mim incrivelmente triste que sociedades capazes de produzir tais maravilhas tenham de impor medidas estritas para impedir que as pessoas utilizem esses belíssimos monumentos como trampolins para o suicídio.


Pare para pensar, por exemplo, no número de pessoas que desesperadamente procuram um senso de empolgação indo a um novo restaurante, começando um novo relacionamento ou mudando de emprego. Por algum tempo, a renovação de fato parece proporcionar algum senso de estímulo. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, a empolgação se abranda; as novas sensações, os novos amigos ou as novas responsabilidades se tornam lugar-comum.
Qualquer felicidade que as pessoas originalmente tenham sentido se dissolve.As medidas de segurança não prejudicaram em nada minha apreciação da beleza desses locais ou da tecnologia necessária para construí- los. Mas, depois de ter visitado alguns desses locais, as precauções de segurança começaram a se encaixar com mais uma coisa que comecei a reparar. Apesar de as pessoas que vivem em culturas materialmente confortáveis tenderem a sorrir com bastante facilidade, seus olhos quase sempre revelam um senso de insatisfação e até de desespero. E as perguntas que as pessoas faziam em conversas tanto públicas quanto privadas muitas vezes giravam em torno de como se tornar melhores ou mais fortes do que eram ou como superar o “ódio a si mesmo”.

europa017Quanto mais eu viajava, mais claro ficava que as pessoas que viviam em sociedades caracterizadas por realizações tecnológicas e materiais tinham as mesmas chances de sentir dor, ansiedade, solidão, isolamento e desespero que as pessoas que viviam em áreas comparativamente menos desenvolvidas. Depois de alguns anos fazendo algumas perguntas bem pontuais em palestras e sessões de aconselhamento particular, comecei a ver que, quando o ritmo do progresso externo ou material excedia o desenvolvimento do conhecimento interior, as pessoas pareciam sofrer profundos conflitos emocionais sem um método interno para lidar com eles. Uma abundância de itens materiais proporciona tal variedade de distrações externas que as pessoas perdem o vínculo com suas vidas interiores.
Então, elas tentam uma nova estratégia, como ir à praia. E, por um tempo, isso também parece satisfatório. O Sol aquece a pele, a água está ótima e há toda uma nova multidão de pessoas para conhecer e talvez algumas novas e
estimulantes atividades para tentar, como andar de jet ski ou esqui-aquático. Contudo, depois de algum tempo, até a praia fica entediante. As mesmas velhas conversas são repetidas indefinidamente, a areia o incomoda, o Sol está forte demais ou se esconde atrás de nuvens e o mar está gelado demais. Então, é hora de seguir em frente ou tentar uma praia diferente, talvez em um país diferente. A mente produz seu próprio tipo de mantra: “Quero ir para o Taiti… Taiti… Taiti…”

O problema com todas essas soluções é que elas são, por natureza, temporárias. Todos os fenômenos resultam da junção de causas e condições e, portanto, inevitavelmente passam por algum tipo de mudança. Quando as causas que produziram e perpetuaram uma experiência de felicidade mudam, a maioria das pessoas acaba responsabilizando as condições externas (outras pessoas, o lugar, o clima etc.) ou a si próprias (“Eu deveria ter dito algo mais gentil ou mais inteligente”, “Eu deveria ter ido a outro lugar”). Entretanto, por refletir uma perda de confiança em si mesmo ou nas coisas que aprendemos a acreditar que deveriam nos trazer felicidade, a culpa só dificulta ainda mais a busca pela felicidade.

A questão mais problemática é que a maioria das pessoas não tem uma idéia muito clara do que seja a felicidade e, conseqüentemente, acabam criando condições que as arrastam de volta à insatisfação que tão desesperadamente tentam eliminar. Dessa forma, seria uma boa idéia analisar a felicidade, a infelicidade e as causas que as fundamentam com um pouco mais de atenção.

”A alegria de Viver”

VOCÊ SABE, A ÚNICA COISA QUE REALMENTE ME SURPREENDEU QUANDO FUI PELA PRIMEIRA VEZ PARA O OCIDENTE ERA OUVIR PESSOAS DIZENDO: ”EU ME ODEIO”, EU NUNCA PODERIA ENTENDER ISSO. MAS AGORA EU ACHO QUE ENTENDO, QUANDO AS PESSOAS DIZEM: ”EU ME ODEIO”, O QUE ELES REALMENTE QUEREM DIZER É: ”EU ME AMO DEMAIS”, E ELAS ESTÃO SEMPRE DECEPCIONADAS POR NÃO CORRESPONDER ÁS EXPECTATIVAS QUE TÊM DE SI MESMAS! ACHO QUE O QUE ELAS QUEREM DIZER É: ”EU SEMPRE ESTOU DECEPCIONADO COMIGO MESMO”.   TAI SITU RINPOCHE, ENTREVISTADO POR MICK BROWN.

OS VÉUS DO EGO

Primeiro, concebemos o “eu” e nos apegamos a ele.
Depois concebemos o “meu” e nos apegamos ao mundo material.
Como água cativa na roda do moinho,
giramos em círculos, impotentes.
Presto homenagem à compaixão que envolve todos os seres.
CHANDRAKIRTI

A confusão mental é um véu que nos impede de ver claramente a realidade, obscurecendo a nossa compreensão da verdadeira natureza das coisas. Na prática, essa confusão nos incapacita de identificar o comportamento que nos permitiria encontrar a felicidade e evitar o sofrimento. Quando olhamos para fora, solidificamos o mundo, projetando nele atributos que de modo algum lhes são inerentes. Ao olhar para dentro, congelamos o fluxo de consciência quando concebemos um “eu” entronizado entre um passado que não existe mais e um futuro que ainda não existe. Acreditamos que vemos as coisas como elas são e quase nunca colocamos em dúvida essa opinião. Atribuímos qualidades às coisas e pessoas e acreditamos que são intrínsecas a elas, pensando “isto é bonito, isto é feio”, sem nos darmos conta de que a nossa mente confere esses atributos àquilo que percebemos.

download (3)Dividimos o mundo inteiro em “desejável” e “indesejável”; atribuímos permanência ao que é efêmero e vemos entidades independentes naquilo que é uma rede de relações que se transformam. Tendemos a isolar aspectos particulares de eventos, situações e pessoas, focalizando apenas essas particularidades. É assim que rotulamos os outros como “inimigos”, “bons”, “maus” e assim por diante, e consideramos essas atribuições permanentes. No entanto, se avaliarmos bem a realidade, essa complexidade se torna óbvia.

Se uma coisa fosse verdadeiramente bela e agradável, se essas qualidades de fato pertencessem a ela, nós a veríamos como desejável em todos os momentos e lugares. Mas existe algo neste mundo que seja considerado belo por todos? Como diz o verso budista: “Para aquele que ama, a bela mulher objeto de desejo; para o eremita, é uma tentação; para o lobo, uma boa refeição.” Da mesma forma, se um objeto fosse intrinsecamente repulsivo, todos teriam uma boa razão para evitá-lo. Mas tudo muda se reconhecermos que estamos apenas atribuindo essas qualidades às coisas e pessoas. Não há, em um belo objeto, nenhuma qualidade intrínseca que o torne benéfico para a mente, assim como também não há nada em um objeto feio que, por causa dessa qualidade, cause dano a ela.

Do mesmo modo, uma pessoa que hoje percebemos como inimiga com toda a certeza é, para outro, objeto de afeição, e poderemos um dia criar laços de amizade com esse mesmíssimo indivíduo. Reagimos como se as características fossem inseparáveis da pessoa e do objeto sobre os quais as depositamos. Assim, distanciamo-nos da realidade e somos arrastados pelo mecanismo de atração e repulsão, mantido em constante movimento por nossas projeções mentais. Nossos conceitos congelam as coisas em entidades artificiais, fazendo-nos perder nossa liberdade interior, do mesmo modo que a água perde sua fluidez quando se torna gelo.

A CRISTALIZAÇÃO DO EGO

O budismo define a confusão mental como o véu que nos impede de ter uma percepção clara da realidade e obscurece a compreensão da verdadeira natureza das coisas. É também, no plano prático, a incapacidade de discernir os comportamentos que permitem encontrar a felicidade e evitar o sofrimento. Entre os muitos aspectos dessa confusão, o mais radicalmente perturbador é aquele que consiste em se apegar à noção de uma identidade pessoal: o ego. O budismo faz distinção entre um “eu” inato e instintivo – quando pensamos, por exemplo, “eu estou acordado” ou “eu sinto frio” – e um ego conceitual, moldado pela força do hábito. Atribuímos várias qualidades ao ego pressupondo que ele seja o núcleo do nosso ser, autônomo e duradouro.

A todo momento, do nascimento à morte, o corpo passa por transformações incessantes, e a mente se torna palco de incontáveis experiências emocionais e conceituais. E, no entanto, nós insistimos em atribuir ao nosso ego qualidades de permanência, unicidade e autonomia. Mais ainda, quando começamos a sentir que esse ego é vulnerável e precisa ser protegido e satisfeito, entram em cena o binômio aversão/atração – aversão por tudo o que o ameaça e atração por tudo que o agrada, conforta, aumenta a sua confiança ou faz com que ele se sinta bem. Esses dois sentimentos básicos, atração e repulsão, são as fontes de um mar de emoções conflitivas.

O ego, escreve o filósofo budista Han de Wit, “é também uma reação afetiva ao nosso campo de experiência, um movimento mental de recuo baseado no medo” . Por medo do mundo e dos outros, por receio de sofrer, por angústia sobre o viver e o morrer, imaginamos que ao nos escondermos dentro de uma bolha – o ego – estaremos protegidos. Criamos, assim, a ilusão de estarmos separados do mundo, acreditando que dessa forma evitaremos o sofrimento. Na realidade, o que acontece nesse caso é justamente o contrário, uma vez que o apego ao ego e à auto-importância são os melhores ímãs para atrair o sofrimento. O genuíno destemor surge com a confiança de que seremos capazes de reunir os recursos interiores necessários para lidar com qualquer situação que surja à nossa frente. Isso é totalmente diferente de retirar-se na auto-absorção, uma reação de medo que perpetua profundos sentimentos de insegurança.

Cada um de nós é, de fato, uma pessoa única, e está certo reconhecermos e apreciarmos quem somos. Mas ao reforçarmos a identidade separada do ego, perdemos a sintonia com a realidade. A verdade é que somos fundamentalmente interdependentes das outras pessoas e do ambiente. Nossa experiência é o conteúdo do fluxo mental, do continuum da consciência, e não há justificativa para ver o ego como uma entidade distinta desse fluxo. Imagine uma onda que se propaga, influencia o ambiente e é influenciada por ele, sem que por isso se transforme no meio de veiculação ou transmissão de qualquer entidade particular. Porém estamos tão acostumados a fixar o rótulo de “eu” a esse fluxo mental, que chegamos a nos identificar com este último e temer o seu desaparecimento. Segue-se daí um poderoso apego ao ego e à noção de “meu” – meu corpo, meu nome, minha mente, minhas posses, meus amigos, e assim por diante – que leva ao desejo de possuir ou ao sentimento de repulsa pelo “outro”.

mente-humana2_c3a1rvoreÉ assim que os conceitos de “eu” e o “outro” se cristalizam na nossa mente. Ficamos com a impressão errada de que existe uma dualidade irredutível e inevitável, criando assim a base para todas as nossas aflições mentais, como o desejo alienante, o ódio, o ciúme, o orgulho e o egoísmo. Nesse ponto percebemos o mundo através do espelho deformantes das nossas ilusões e permanecemos em desarmonia com a verdadeira natureza das coisas, o que leva à frustação e ao sofrimento.

Podemos observar essa cristalização do “eu” e do “meu” em muitas situações da vida cotidiana. Você cochila pacificamente em um barco no meio de um lago. Outra embarcação bate a proa e você acorda de repente. Pensando que a colisão foi a obra de algum barqueiro trapalhão ou mal-intencionado, você fica furioso ao abrir os olhos, pronto para xingá-lo, e então percebe que o barco em questão está vazio. Você ri do seu próprio erro e volta para o seu cochilo. A única diferença entre as duas reações é que, no primeiro caso, você pensou estar sendo alvo da malícia de alguém, e no segundo percebeu que o seu “eu” não era alvo de nada.

Da mesma maneira, se alguém lhe dá um soco, talvez você fique contrariado por um bom tempo. Mas observe a dor física: ela logo diminui e se torna imperceptível. A única coisa que continua a lhe fazer mal é a ferida aberta no ego.

Certa vez, uma amiga veio de Hong Kong para receber alguns ensinamentos no Nepal. Milhares de pessoas estavam reunidas ali, amontoadas no chão do vasto pátio do nosso monastério. Essa amiga circulava por todos os lados, buscando um lugar para sentar com um pouco mais de conforto com as pernas cruzadas em sua almofada, quando alguém a atingiu com um soco nas costas. Ela me disse depois: “Fiquei irritada uma hora inteira. Como pôde alguém que veio ouvir ensinamentos budistas comportar-se comigo de maneira tão rude e sem compaixão, logo comigo que vim de tão longe para receber aqueles ensinamentos! Mas, algum tempo depois, percebi que apesar de a minha irritação ter perdurado, a dor física real não tinha durado quase nada e logo se tornara imperceptível. A única coisa que continuava doendo era o meu ego ferido! Eu passara por um minuto de dor física e por cinquenta e nove de dor de ego!” Se concebermos o ego como um mero conceito, e não como uma entidade autônoma que precisamos proteger e satisfazer a todo custo, iremos reagir de maneira completamente diferente a situações como essas.

Eis outro exemplo para ilustrar o apego que temos à ideia de “meu”. Imagine-se olhando para um belo vaso de porcelana em uma vitrine. De repente, um vendedor desastrado derruba-o no chão. “Que pena! Um vaso tão bonito!”, suspira você, e continua sem maiores problemas em seu caminho. Mas se você tivesse acabado de comprar o mesmo vaso para colocá-lo em sua mesa, vê-lo cair logo em seguida e estilhaçar-se em mil pedacinhos faria com que exclamasse “meu vaso se quebrou”, e o acidente iria mexer profundamente com você. A única diferença seria a etiqueta de “meu” que você colocou no vaso.

É claro que essa percepção errônea de um ego real e independente baseia-se no egocentrismo, que nos convence de que a nossa sorte tem mais valor do que a dos outros. Imagine a seguinte situação: o seu chefe chama a atenção de um colega que você detesta, repreende com dureza outro por quem você não tem sentimentos e faz um áspero comentário a você. No primeiro caso, você sentirá satisfação; no segundo, indiferença, e no terceiro, mágoa. Mas, na realidade, por quem o bem-estar de alguma dessas três pessoas prevaleceria sobre o das outras? O egocentrismo que coloca o eu no centro do mundo tem um ponto de vista inteiramente relativo. O erro que cometemos é fixar o nosso ponto de vista e esperar, ou, pior ainda, insistir que o “nosso” mundo prevaleça sobre o dos outros.

O QUE FAZER COM O EGO?

Diferentemente do budismo, na psicologia há poucos métodos para tratar do problema de como reduzir o sentimento de importância do eu – uma redução que, para o homem sábio, vai até a ”erradicação” do ego. Essa é uma ideia certamente nova e, no Ocidente, talvez até subversiva, já que consideramos o ego o elemento fundamental da personalidade. Pensamos: se eu eliminar meu ego vou deixar de existir como pessoa. Como é possível conceber um indivíduo sem um eu, sem um ego? Esse conceito não é psiquicamente perigoso? Não há o risco de mergulharmos em algum tipo de esquizofrenia? Um ego fraco ou não-existente não é um sinal clínico de uma patologia mais ou menos perigosa? Não é necessário dispor de uma personalidade totalmente desenvolvida antes de poder abrir mão do ego? Esses são os tipos de reação defensiva que a maior parte dos ocidentais tem diante de noções tão pouco familiares. A ideia de que precisamos de um ego forte vem do fato de dizermos que algumas pessoas que sofrem de problemas mentais têm um eu fragmentado, frágil ou deficiente.

A psicologia da primeira infância descreve a maneira como um bebê aprende sobre o mundo; como ele pouco a pouco se situa no relacionamento com a mãe, com o pai e os outros ao seu redor; como, quando atinge o primeiro ano de vida, começa a compreender que ele e a sua mãe são dois seres diferentes, que o mundo não é uma extensão de si mesmo e que ele pode provocar uma série de acontecimentos que, por sua vez, têm desdobramentos. A essa tomada cada vez maior de consciência dá-se o nome de “nascimento psicológico”. Concebemos, portanto, o indivíduo como uma personalidade idealmente estável, segura de si, e ancorada na crença da existência do eu. A educação proveniente dos pais, como também aquela que mais tarde recebemos nas escolas, reforça essa noção, que prevalece em toda a nossa literatura e em nossa história. De certo modo, pode-se dizer que a crença de um eu estabelecido é uma das características predominantes da nossa civilização. Não falamos de construir personalidades fortes, resilientes, adaptáveis e assertivas?

Isso significa confundir ego com autoconfiança. O ego não pode obter senão uma confiança inventada, construída sobre atributos precários e insubstanciais como poder, sucesso, beleza, força física, brio intelectual, a opinião dos outros e, sobretudo, a partir daquilo que acreditamos constituir a nossa “identidade”, nossa imagem, como a vemos e os outros a vêem. Quando as coisas mudam e a distância do real aumenta, o ego fica irritado, congela e hesita. A autoconfiança desmorona, e só restam a frustação e o sofrimento.

Para o budismo, paradoxalmente, uma autoconfiança digna desse nome é algo totalmente diferente. É uma qualidade natural do estado de ausência de ego! Dissipar a ilusão do ego é liberar-se de uma vulnerabilidade fundamental. A verdade é que o sentimento de segurança que deriva dessa ilusão é muito frágil. A confiança autêntica nasce do reconhecimento da verdadeira natureza das coisas, e de uma tomada de consciência da qualidade fundamental da nossa mente, que é também o nosso potencial para transformação e florescimento – chamada, no budismo, de natureza búdica, presente em todos os seres. Esse reconhecimento confere uma força serena que não é ameaçada nem pelas circunstâncias exteriores nem pelos medos internos. Trata-se de uma liberdade que transcende a fascinação e a ansiedade.

181444_623325071030676_321677748_nOutra ideia muito difundida é a de que na ausência de um eu forte mal poderíamos ter emoções, e a vida se tornaria incrivelmente monótona. Sentiríamos falta de criatividade, de espírito de aventura – em uma palavra, de personalidade. Pense sobre aqueles em torno de você que são dotados de um ego bem desenvolvido, para não dizer hiperdesenvolvido. Há muitos à nossa escolha: não faltam imperadores do “eu sou o mais forte, o mais célebre, o mais influente, o mais rico e o mais poderoso”. Por outro lado, quem são as pessoas que, apesar de diferentes ao sexo, idade e raça, manifestaram uma genuína confiança interior que não se baseia num ego “inflado”? Sócrates, Diógenes, o Buda, Jesus, Gandhi, Martin Luther King, madre Teresa, O Dalai Lama, Nelson Mandela, e incontáveis outros heróis não celebrados que trabalham no anonimato. Será necessário explicar a diferença?
A experiência mostra que aqueles entre nós que tiveram sucesso, mesmo parcial, em libertar-se da ditadura do ego pensam e agem com uma espontaneidade e liberdade que contrastam de maneira feliz com a constante paranoia engendrada pelos caprichos de um eu triunfante.
Paul Ekman, um dos especialistas mundiais na ciência das emoções, dedicou-se a estudar “as pessoas dotadas de qualidade humanas excepcionais”. Entre os traços mais notáveis que essas pessoas têm, ele observa, estão “uma impressão de bondade e gentileza, uma qualidade de ser que os outros percebem e apreciam; diferentemente de numerosos charlatões carismáticos, há uma harmonia perfeita entre vida pública e privada”. Mas, acima de tudo, observa Ekmanm elas manifestam “uma ausência de ego: essas pessoas inspiram as outras pelo pouco caso que fazem do status e da fama que possuem- em resumo, de seu ego. Nunca se preocupam que o mundo lhes reconheça a posição ou importância”. Essa ausência de egocentrismo, ele acrescenta, “causa total perplexidade do ponto de vista psicológico”. Ekman sublinha também que “ as outras pessoas instintivamente querem estar junto delas e, mesmo sem saber explicar por quê, consideram a sua presença enriquecedora. Em essência, elas irradiam bondade”. 2 Tais qualidades oferecem um notável contraste com os campeões do ego, cuja presença é no mínimo entristecedora, quando não desagradável. Tendo de um lado a teatralidade grandiloquente, as ostentações e a ocasional ferocidade do ego rei, e de outro a calorosa simplicidade daqueles que não têm ego, não é muito difícil escolher.
Também os psicopatas, que são incapazes de sentir qualquer empatia pelos outros ou qualquer arrependimento pelo sofrimento que infligem a eles, são adeptos da supremacia do ego. Como observa Aaron Beck, o fundador da terapia cognitiva: “Os profissionais que trabalham com psicopatas ficam impressionados com o extremo egocentrismo encontrado neles. São totalmente voltados a servir a si mesmos e, acima de tudo, pensam que têm direitos inatos e prerrogativas que transcendem ou se adiantam às das outras pessoas”. 

A ideia de que um ego poderoso é necessário para ser bem-sucedido na vida sem dúvida vem da confusão entre o apego ao ego, à nossa própria imagem, e a determinação indispensável à realização das nossas aspirações mais profundas. O fato é que quanto menos influenciados formos pela ideia de que o nosso eu é importante, mais fácil será adquirir uma força interior duradoura. A razão para isso é simples: o sentimento de auto-importância é um alvo exposto a todo tipo de projéteis mentais – ciúme, medo, ganância, repulsão – que não cessam de desestabilizá-lo.

”Felicidade – A pratica do Bem Estar”

Na psicologia budista, ego é visto como uma espécie de filtro, uma rede através da qual a energia está constantemente a ser canalizada e manipulada ao invés de ser capaz de fluir livremente no espaço irrestrito. Não é uma entidade sólida, mas um processo de momento-a-momento do nascimento, evolução e morte.

Por que devemos parar de perseguir a autoestima e começar a desenvolver autocompaixão: 

 Já se tornou quase banal em nossa cultura o fato de que precisamos ter auto-estima para sermos felizes e saudáveis. Psicólogos têm conduzido centenas de estudos divulgando os benefícios da auto-estima. Os professores são incentivados a dar estrelas de ouro a todos os alunos para que cada um possa se sentir orgulhoso e especial. Somos instruídos a pensar positivamente sobre nós mesmos a todo o custo, como no livro de afirmações positivas de Stuart Smalleys:  “Eu sou bom o suficiente, esperto o suficiente e, caramba, as pessoas gostam de mim!”  Mas como a pesquisa está começando a demonstrar agora, a necessidade de continuamente nos avaliarmos de forma positiva tem um preço alto.

O principal problema é que para se ter uma autoestima elevada é preciso sentir-se especial e acima da média. Ser chamado de ”mediano” é considerado um insulto em nossa cultura. (O que achou do meu desempenho ontem à noite? Foi mediano. Opa!) Claro, obviamente é impossível que cada ser humano no planeta seja acima da média, ao mesmo tempo. Então, desenvolvemos o que é conhecido como um “viés de auto-aprimoramento”, que se refere à tendência de nos acharmos superiores aos outros em uma variedade de dimensões. Estudos têm mostrado que a maioria das pessoas se acha mais simpática, mais popular, mais engraçada, mais agradável, mais confiável, mais sábia e mais inteligente do que os outros. Ironicamente, a maioria das pessoas também acha que está acima da média na capacidade de se ver objetivamente! O resultado de se usar esses óculos cor-de-rosa não é tão bonito.

Essa necessidade de se sentir superior resulta em um processo de comparação social, no qual continuamente tentamos nos sobressair e desvalorizar os outros (pense no filme Meninas Malvadas e você vai entender o que eu estou falando). As pessoas que praticam bullying geralmente têm uma autoestima elevada, por exemplo, já que implicar com pessoas mais fracas é uma maneira fácil de aumentar a autoestima.

Uma das consequências mais insidiosas do movimento da autoestima nas últimas décadas é a epidemia de narcisismo. Jean Twenge, autora de “Generation Me” (Geração Eu), analisou os níveis de narcisismo de mais de 15.000 universitários dos Estados Unidos, entre 1987 e 2006. Durante esse período de 20 anos, o nível de narcisismo foi às alturas, com 65 por cento dos estudantes de hoje superando as gerações anteriores em narcisismo. Não coincidentemente, a média dos níveis de autoestima dos estudantes aumentou em uma proporção ainda maior no mesmo período.

Ao mesmo tempo em que tentamos nos ver como melhores do que os outros, tendemos também a nos “estripar”com autocrítica, quando não alcançamos altos padrões. Logo que nossos sentimentos de superioridade escorregam– como inevitavelmente acontece– nosso senso de dignidade cai vertiginosamente. Nós balançamos descontroladamente entre autoestima excessivamente inflada e excessivamente esmorecida, uma montanha russa emocional, cujo resultado final é, muitas vezes, insegurança, ansiedade e depressão.

Então, qual é a alternativa? Que tal nos sentirmos bem com nós mesmos, sem a necessidade de sermos melhores do que outros, caindo assim na armadilha do narcisismo/ auto-reprovação? Uma resposta seria desenvolver a autocompaixão.

Autocompaixão envolve sermos gentis com nós mesmos, quando a vida dá errado ou notamos algo sobre nós que não gostamos, em vez de sermos frios ou severamente autocríticos. Ela reconhece que a condição humana é imperfeita, assim, nos sentimos conectados aos outros quando falhamos ou sofremos, em vez de nos sentirmos separados ou isolados. Envolve também a conscientização– o reconhecimento e a aceitação imparcial das emoções dolorosas ao passo que surgem no momento atual. Ao invés de suprimir nossa dor, ou então torná-la um drama pessoal exagerado, vemos a nós mesmos e a nossa situação claramente.

Autocompaixão não exige que nos avaliemos positivamente ou que nos vejamos como melhores do que outros. Pelo contrário, as emoções positivas da autocompaixão surgem exatamente quando a autoestima cai; Quando não atendemos a nossas expectativas ou falhamos de alguma forma. Isto significa que o senso de autovalorização intrínseco inerente à autocompaixão é altamente estável. Está constantemente disponível para nos fornecer cuidados e apoio em momentos de necessidade. Minha pesquisa e a dos meus colegas tem mostrado que a autocompaixão oferece os mesmos benefícios que a autoestima elevada, tais como menos ansiedade e depressão e maior felicidade. No entanto, não está associada com as desvantagens da autoestima como narcisismo, comparação social ou defesa do ego.

Ao invés de perseguir eternamente a autoestima como se fosse o pote de ouro no fim do arco-íris, portanto, eu diria que se deve encorajar o desenvolvimento de autocompaixão. Dessa forma, se estivermos no topo do mundo ou no fundo do poço, podemos nos envolver com um sentido uma bondade, conectividade e equilíbrio emocional. Nós podemos fornecer a segurança emocional necessária para vermos a nós mesmos com clareza e nos certificarmos de fazer as mudanças necessárias para resolver nosso sofrimento. Podemos aprender a nos sentir bem, não porque somos especiais e acima da média, mas porque somos seres humanos intrinsecamente dignos de respeito.

 Kristin Neff em http://www.huffingtonpost.com/kristin-neff/self-compassion_b_843721.html

“Se você quer que os outros sejam felizes, pratique compaixão. Se você quer ser feliz, pratique compaixão”.~ Tenzin Gyatso, XIV Dalai Lama

AS FACES FRÁGEIS DA IDENTIDADE

A noção de pessoa inclui a imagem que temos de nós mesmos. A ideia da nossa identidade, do nosso status na vida, está profundamente enraizada em nossa mente, e influencia de modo constante as nossas relações com os outros. A menor palavra que ameace a imagem que temos de nós mesmos é intolerável, mesmo que não tenhamos o menor problema em ver qualificativo idêntico aplicado a outra pessoa, em circunstâncias diferentes. Se você grita insultos ou bajulações na direção de um rochedo, as palavras ecoam de volta a você, que em nada se afeta com isso. Mas se outra pessoa o insulta com as mesmas palavras, isso lhe traz uma perturbação profunda… Se temos uma imagem forte de nós mesmos, tentaremos nos assegurar de que ela seja reconhecida e aceita. Nada é mais doloroso do que vê-la posta em dúvida.gaiola

Mas que valor tem essa identidade? É interessante lembrar que a palavra “personalidade” vem de persona, que significa “máscara” em latim – a máscara através da qual (per) a voz do ator faz ressoar (sonat) sua fala. Mas enquanto o ator sabe que usa uma máscara, nós costumamos esquecer de separar entre o papel que desempenhamos na sociedade e a nossa verdadeira natureza.

Se nos acontece de ter a experiência de encontrar, em países longínquos, pessoas em condições mais ou menos difíceis como uma caminhada na montanha, uma travessia pelo mar, sentimos que nesses dias de aventura partilhada, tudo o que importa é que elas são nossas companheiras de viagem, tendo como bagagem somente as qualidades e os defeitos que manifestam ao longo das peripécias conjuntamente vividas. Pouco importa “quem” elas são, a profissão que exercem, a importância da fortuna que possuem ou a posição que ocupam na sociedade. No entanto, se depois da aventura esses companheiros se reencontram, a espontaneidade muitas vezes desaparece, porque todos recolocam a sua “máscara”, endossam o seu papel e o seu status social de pai de família, pintor de paredes ou dono de indústria. O encanto se rompe, desaparece a espontaneidade. Essa profusão de etiquetas e rótulos distorce os relacionamentos humanos porque, em vez de vivermos os acontecimentos da forma mais sincera possível, comportamo-nos com afetação para preservar a nossa imagem.

Em geral temos medo de lidar com o mundo sem pontos de referência e somos acometidos por vertigens sempre que as máscaras e os epítetos desabam. Se não sou mais músico, escritor, funcionário, educado, bonito ou forte, quem sou eu? No entanto, não portar nenhum rótulo é a melhor garantia de liberdade e a maneira mais flexível, leve e alegre de passar por este mundo. Recusar-se a ser vítima da impostura do ego não nos impede em nada de nutrir uma potente determinação em atingir os objetivos que definimos para nós mesmos e de usufruir a cada instante da riqueza das nossas relações com o mundo e os seres. O efeito, na realidade, é justamente o oposto.

“AS RAZÕES MAIS PROFUNDAS PARA AMAR A SI MESMO NÃO TEM NADA A VER COM NADA FORA DE VOCÊ – NÃO COM O SEU CORPO OU COM AS EXPECTATIVAS QUE OS OUTROS TÊM DE VOCÊ. SE VOCÊ ENTRAR EM CONTATO COM SUA PRÓPRIA BONDADE, NADA SERÁ CAPAZ DE PREJUDICAR A SUA AUTO-ESTIMA.” KARMAPA

ATRAVÉS DO MURO INVISÍVEL

Como posso utilizar essa análise que vai na direção contrária à das concepções e dos pressupostos ocidentais? Até agora, bem ou mal, funcionei com essa ideia, ainda que vaga, de que existe um eu central. Em que medida essa compreensão da natureza ilusória do ego me coloca diante do risco de mudar as relações com a minha família e com o mundo ao meu redor? Uma virada de cento e oitenta graus como essa não seria desestabilizadora, perturbadora?

A essas perguntas pode-se responder: a experiência mostra que essa virada só fará bem a você. De fato, quando o ego predomina, a mente é como um pássaro que se fere ao chocar-se contra uma vidraça, a da crença nesse ego, confinando nosso universo a limites muito estreitos. Perplexa e atordoada pela barreira, a mente não sabe como atravessá-la. Essa barreira é invisível porque não tem existência verdadeira, não passa de um construto da mente. No entanto, funciona como um muro ao fragmentar o nosso mundo interior e interromper o fluxo do nosso altruísmo e da nossa alegria de viver. Se não tivéssemos fabricado o vidro do ego, esse muro não existiria e não teria nenhuma razão de ser. O apego ao ego está ligado aos sofrimentos que sentimos e aos que infligimos aos outros. Abandonar a fixação na nossa imagem pessoal e deixar de dar tanta importância ao ego significa ganhar uma enorme liberdade interior. Isso permite que abordemos todos os seres e todas as situações com naturalidade, benevolência, força de espírito e serenidade. Não esperando ganhar e sem o temor de perder, somos livres para dar e receber. Não há mais o menor motivo para pensar, falar ou agir de maneira afetada, egoísta ou inapropriada.

felicidade2Agarrando-nos ao confinado universo do ego, temos a tendência a nos preocupar unicamente conosco. A menor contrariedade nos perturba e nos desencoraja. Somos obcecados pelos nossos sucessos, nossas derrotas, nossas esperanças e nossas inquietudes, sendo assim quase impossível alcançar a felicidade. O mundo estreito do ego é como um copo d’água em que jogamos uma pitada de sal: a água se torna impossível de beber. Se, por outro lado, rompemos as barreiras do ego e a mente se torna como um grande lago, a mesma pitada de sal não altera o seu sabor em absolutamente nada.

Quando o ego deixa de ser considerado como a coisa mais importante do mundo, é muito mais fácil sentirmos interesse por outras pessoas. Perceber os sofrimentos dos outros redobra a nossa coragem e determinação para trabalharmos para o bem deles.

Se o ego constituísse realmente a nossa essência profunda, seria fácil compreender a nossa inquietação diante da ideia de nos livrarmos dele. Mas se ele não é outra coisa senão ilusão, libertar-se do ego não é extirpar o coração do nosso ser, mas simplesmente abrir os olhos.

Assim, vale a pena dedicar alguns momentos da nossa existência para deixar a mente repousar na calma interior, isso permitirá que compreendamos melhor, por meio da análise e da experiência direta, o lugar que o ego ocupa na nossa vida. Enquanto o sentimento de que o ego é importante detiver as rédeas do nosso ser, jamais conheceremos uma paz duradoura. A própria fonte da dor permanecerá intacta no mais profundo de nós e nos privará da mais essencial das liberdades.
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”Felicidade – A pratica do Bem Estar”

”Na prática da meditação, tendo desenvolvido um sentimento de confiança em nós próprios, lentamente esse sentimento vira-se para fora de nós e o mundo torna-se um local mais amigável, em vez de um mundo hostil. Poder-se-ia dizer que mudamos o mundo: tornamo-nos o Rei ou a Raínha do Universo. Mas por outro lado, não se pode dizer exactamente isso, porque o mundo devolveu-nos a cortesia, veio na nossa direcção para nos devolver a nossa amizade. No início, ele tentou todas as formas duras de lidar connosco, mas finalmente o mundo e nós próprios começamos a falar um com o outro, e o mundo torna-se um mundo real, completamente real, não mais uma ilusão ou um mundo confuso. É um mundo real. E nós começamos a apercebermo-nos das realidade dos seus elementos, da realidade do tempo e do espaço, da realidade das emoções – da realidade de tudo.”  Chögyam Trungpa Rinpoche

“Imagine uma pessoa que subitamente acorda num hospital depois de sofrer um acidente de carro na estrada, e percebe que está com amnésia total. Por fora, tudo está intacto: ela tem o mesmo rosto, a mesma forma, os sentidos e a mente estão lá, mas não tem a menor idéia ou o menor vestígio de memória de quem é. Exatamente do mesmo modo, não conseguimos nos lembrar da nossa verdadeira identidade, nossa natureza original. Freneticamente e na realidade apavorados, procuramos e improvisamos outra identidade, uma em que possamos nos agarrar com todo o desespero de alguém que vai cair num abismo. Essa identidade falsa e assumida em ignorância é o ego”.

Desse modo, o ego é a ausência do conhecimento verdadeiro de quem somos, juntamente com o seu resultado: um malfadado apego, mantido a não importa que preço, a uma imagem remendada e improvisada de nós mesmos, um eu inevitavelmente charlatanesco e camaleônico que está sempre mudando e que precisa mudar para manter viva a ficção da sua existência. Em tibetano, o ego é chamado dak dzín, que quer dizer “agarrado a um eu”. O ego é assim definido como um movimento incessante de agarrar-se em uma noção ilusória de ‘eu’ e ‘meu’, desse mesmo e do outro, e em todos os conceitos, idéias, desejos e atividades que sustentam essa falsa construção.

Esse agarrar-se é fútil desde o início e condenado à frustração. Uma vez que não tem nenhuma base ou verdade, e aquilo a que nos agarramos é, por sua própria natureza, impossível de reter. O fato de que precisamos nos agarrar a continuar agarrados a alguma coisa mostra que nas profundezas de nosso ser sabemos que o eu não existe inerentemente. Desse conhecimento secreto e assustador nascem todas as nossas inseguranças fundamentais e o nosso medo. […]

E ainda que possamos ver além das mentiras do ego, estamos assustados demais para abandona-lo; porque sem um verdadeiro conhecimento da natureza da nossa mente, ou real identidade, simplesmente não temos outra alternativa”.”

O LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER – Sogyal Rinpoche

TROCANDO O ”EU” PELOS OUTROS: Transformando-nos nos outros. 

Geshe Lobsang Tenpa

Segundo o Budismo, para sermos felizes, temos de desenvolver um genuíno sentimento de amor pelos outros: temos de ser capazes de amá-los. Este pensamento, este sentimento – o de amor pelos outros – é a porta que abre as práticas Mahayanas. Todo sofrimento que experimentamos tem uma causa: e esta causa reside no pensamento egoísta, no pensamento de se preservar a si mesmo, de só pensar em si mesmo, de tirar vantagem para si, proveito para si mesmo em tudo e com tudo. Ou seja, só pensar em si mesmo, o tempo todo. O nosso real inimigo é esse tipo de carinho por si mesmo, de cuidado de si, de auto-piedade. Ou seja, o pensamento que diz sempre: “eu podia ter conseguido isso para mim”, “isso me aconteceu”, “fizeram isso comigo”, “o que há de errado comigo?”, “por que isso só acontece comigo?” Esse é o tipo de pensamento que gera a infelicidade: o de pensar em si mesmo.

Devemos desprezar o pensamento que pensa em si mesmo, abandonar esse tipo de pensamento, desprezar a idéia de cuidar apenas de si de modo auto-centrado e nos dedicar inteiramente em pensar nos outros. 

Não se trata de desprezar-nos a si mesmo, julgando-nos inferior: muito ao contrario, devemos desenvolver uma imensa autoconfiança na nossa capacidade de ir em socorro dos outros, de ser deles a salvação e o amparo.

Podemos começar pelas pequenas coisas, como anular nossas reações de resposta às agressividades do outro para conosco, quando o outro se encontra sob o poder dominador das aflições mentais. Isto a princípio parecerá muito difícil, como tudo que a princípio aprendemos, mas depois poderá nos parecer familiar. Podemos até sentir ódio, mas não demonstramos, mas anulamos imediatamente este ódio-resposta, de forma que aos pouco vamos nos tornando mestres de nós mesmos e de nossas reações. Todos os nossos problemas derivam de nós nos prezarmos demais, de pensarmos muito em nós mesmos, de estimarmo-nos demais a nós mesmos. Alimentamos este pensamento há muito tempo, há muitas vidas, que é o pensamento instintivo de preservação.

Todos os Budhas praticaram este treinamento de trocar o si-próprio pelos outros. Todos os Bodisatvas também realizaram isso. Eles continuam fazem isto: o cuidado para com os outros. Incontáveis vidas o Bodisatva praticou assim, antes de se tornar um Budha. E é muito importante ver e entusiasmar-se com os exemplos dos grandes Mestres que praticaram antes de nós: ou seja, não se importar com o que acontece ou acontecerá conosco mesmos, e sim com os demais. Não se dar muito valor… e ao mesmo tempo se considerar com a responsabilidade universal de assegurar o bem-estar do mundo. Este pensamento nos transformará num Budha.

Devemos começar pelas coisas mais simples, como ceder a vez numa fila, ou dar o seu lugar no ônibus. Devemos aprender a nos dedicar aos outros nos mínimos gestos, por exemplo, distribuindo sorriso e afeto genuíno. Mesmos os animais sentem quando nos aproximamos deles com afeto, com amor, com alegria de vê-lo, de encontrá-lo. 184514_623502581012925_1806917455_n

Agradar aos outros de forma genuína e amorosa acumula tudo que é positividade, acumula amigos e riqueza, felicidade e segurança. Agradar aos outros com genuíno amor nos leva a galgar os mais altos degraus.

É pela análise, é pela observação racional e minuciosa que podemos nos convencer das imensas vantagens que afinal colhemos pela prática de nos dedicarmo-nos ao amor genuíno e verdadeiro aos demais. São imensos os frutos, espirituais e até materiais. 

O egoísmo, tentando engrandecer o “eu”, contraditoriamente é o principal inimigo do “eu”. Quem se sente só, quem se sente isolado, é devido ao egoísmo que se sente só e isolado. Quem se dedica aos demais, quem se dá aos demais, tem muitos amigos, atrai muitos amigos. Esta pessoa passa a ser respeitada e amada por todos, pelos homens e deuses. Até pelos animais. A bondade é algo que se irradia e atinge os outros, e é algo que faz bem aos outros, que os outros sentem.

É por esta prática que se começa a desenvolver a chamada bodhicita, ou mente de iluminação. A Bodhicita é o desejo de atingir o estado de Buddha pelo bem de todos os seres. A Bodhicita é amor e compaixão. Amor se define pelo desejo de que o outro seja feliz. Compaixão se define pelo desejo de que o outro se liberte do sofrimento.

Algumas pessoas têm muito valor, muito saber, mas não são reconhecidas porque não desenvolveram a Bodhicita. Porque são egoístas. E como são egoístas, acumulam negatividades, geram negatividades e atraem negatividades para si. As pessoas egoístas não têm muitos amigos. Ao contrário, têm inimigos. Assim, o egoísta não consegue ajuda e socorro quando precisa, quando encontram problemas.

A nossa sociedade moderna se fundamenta no contrário, se baseia no egoísmo, no narcisismo. Por isso há muito sofrimento. O egoísmo gera ódio, o ódio é a raiz da guerra. Ao contrário, a nossa mente deve voltar-se para a maioria, para fora. Pensar na maioria nos faz crescer, como heróis. Por isso os Bodhisatvas são conhecidos como heróis. 

Pensar no mundo, na humanidade, sem ilusões, sem fantasia, mas começando pelos mais próximos – isto nos faz crescer, aumenta a nossa capacidade de amar e de nos libertar a nós mesmos e aos outros.

Por isso devemos nos concentrar em pensar constantemente nos outros e não no nosso egoístico eu. Um dos modos de treinamento é o esforço por desenvolver a equanimidade. Com equanimidade nós não fazemos diferença entre eu e você, entre amigos e inimigos, entre familiares e estranhos. Assim vemos que todos, como nós, querem a felicidade. E como nós também os outros buscam isso de diferentes maneiras. Nós também desenvolvemos a troca do eu pelos outros pelo raciocínio. Como nós, os outros também não querem o sofrimento, mas querem a felicidade.

É quando pensamos muito pouco em nós mesmos, e o tempo todo nos outros, que desenvolvemos a troca pelos outros, o trocar-se pelos outros.

O forte pensamento, o forte sentimento de beneficiar os outros, de que os outros estejam bem, é isso que se chama trocar a si pelos outros. É fazer sugir esse tipo de mente búdica, de mente de bodichita. Se o nosso trabalho, se a nossa mente for toda dirigida para o benefício dos outros nós seremos os principais benfeitores de nós mesmos e dos outros. Nós seremos incluídos.Aquilo que plantamos, colhemos. Quando plantamos para os outros, a riqueza vem abundante, automaticamente.

Quando só pensamos nisto, minuto a minuto, nós nos trocamos pelos outros. É esse treinamento da mente a prática mais sagrada. Quando dominamos essa técnica conseguimos gerar compaixão espontânea, amor espontâneo.

Os Budas são feitos da matéria da compaixão. Lentamente progredimos da pequena para a grande compaixão. Praticando diariamente. O esforço é necessário para atingir a experiência.

 
”A natureza do bodisatva resulta de uma história ensinada em que três pessoas estão andando por um deserto. Seca e sede, eles espiam um muro alto à frente. Eles se aproximam e circulam o muro, mas não tem entrada ou porta. Um sobe nos ombros dos outros, olha para dentro, gritando “Eureka” e pula para dentro. O segundo, em seguida, sobe e repete as ações do primeiro. O terceiro laboriosamente sobe o muro, sem assistência e vê um luxuriante jardim. Ele tem água fresca, árvores, frutos, etc. Mas, em vez de saltar para o jardim, a terceira pessoa salta de volta para o deserto e procura andarilhos do deserto para falar sobre o jardim e como encontrá-lo. A terceira pessoa é o Bodhisattva.”

Os votos de bodisatva não se referem a uma realização, mas a uma direção, a um rumo da intenção. Sejam quais forem as circunstâncias — nascimento ou morte, alegria ou tristeza — meu corpo, minha fala e minha mente seguem a direção da compaixão e do despertar. A cada momento, vou plantar sementes de bondade e libertação para mim e para todos os seres vivos

CONFIRA TAMBÉM O POST ”COMO E PORQUE SURGEM EMOÇÕES, E COMO DESENVOLVER A CONSCIÊNCIA DESPERTA”.

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