setembro 21

DESCONSTRUINDO NOSSAS ILUSÕES

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Texto de Monge Genshô

Monge Genshô – Como foi essa primeira experiência para vocês?

Participante I – Olha, minha mente é sempre muito agitada, então tinha que ficar o tempo todo me policiando pra poder trazer minha mente de volta. O corpo ficou pesado por alguns momentos. Mas foi uma luta tranquilizar a mente.

Participante II – Tive essa mesma sensação de peso, mas é interessante como na tentativa de manter a mente no presente nossa percepção aumenta, sons que comumente passariam despercebidos ficam claros, pássaros, carros etc.

Participante III – Foi uma experiência muito interessante, sempre tive dificuldade de não deixar a mente viajar. Usar a respiração como âncora também foi muito útil.

Participante IV – Também usei a respiração, fisicamente não senti dificuldades e o tempo passou mais rápido que eu imaginei que passaria.

Monge Genshô – As pessoas não sabem muito bem o que é o tempo. Quarenta minutos não é muito tempo. Eu vim de outro local onde estava participando de um encontro e já fiz três horas de meditação, os quinze minutos que fizemos agora não é nada.

Participante IV – No início da meditação vem muitos pensamentos, coisas que deveriam ter sido feitas, coisas que terei que fazer depois, o tempo todo a mente vai e volta, passado e futuro. Mais perto do final senti um pouco de sonolência.

Monge Genshô – A sonolência é sinal de que você verdadeiramente relaxou. As ondas cerebrais começam a mudar. Se medirmos as atividades mentais em nossa vida diária, elas estarão em ondas “Beta”, mas quando estamos em meditação e com esse tipo de sentimento, sonolência, as ondas mudam para “Alfa”, serenidade. Quando vai adormecendo é “Theta”. Quando fazemos meditação a necessidade de sono diminui, porque na realidade descansamos. Mas o que é importante?

Quando você aprende meditação, você faz um treinamento da mente. Nos primeiros estágios esse treinamento lhe aumenta a capacidade de concentração e você aprende a ficar no momento, concentrado no que é realmente importante. Quando você está viajando para passado ou futuro, nada disso é importante. A memória do passado é construída, você tem lembranças dos eventos, mas você os vê sob seu ponto de vista, em razão disso são distorcidas por suas próprias percepções. Isso é muito fácil de percebermos pois, se alguém entrar agora na sala e fizer um pequeno teatro, o relato de cada um de vocês será diferente. Não podemos dizer que o relato de um ou de outro seja verdadeiro, ele será o ponto de vista particular, carregado de emoções, um ponto de vista particular, isso é a memoria. 

Hoje temos um grande numero de pessoas com depressão, tristezas ou remorsos no mundo. Esses sentimentos são predominantemente causados pelo passado. A pessoa percebe como foi sua vida passada, como se formou, como é sua mente e sua vida hoje em razão de acontecimentos passados, por isso vemos tantas pessoas tomando antidepressivos. Nesse momento, sem passado algum, sem qualquer tipo de memória, somos plenamente felizes, pois não carregamos coisas anteriores. 

Outro problema é o futuro. O que farei amanhã, dívidas que terei que pagar, problemas a serem resolvidos, tudo isso gera ansiedade. Quando você vive no futuro é ansioso, quando vive no passado é deprimido. Quando sentamos para praticar zazen, estamos treinando nossa mente para retornar para a única realidade sólida, que é o momento presente. Temos que compreender e aprender que tanto passado como futuro são construções e representações mentais e em si não são realidades. 

Problemático isso, não é? Isso é porque olhamos a vida como se o presente não existisse. Observem as pessoas nas ruas e tentem perceber isso, se pudéssemos ler suas mentes veríamos passado, passado, passado, ou então, amanhã contas a pagar, problemas a resolver. Uma vez conversando com um mestre ele me disse: “Sabe o orgasmo? É o único momento em que as pessoas estão realmente ali presentes”. E não é verdade? Se a pessoa naquele momento pensar em passado ou futuro, não consegue. A experiência de viver o momento presente é uma experiência maravilhosa, é a pura felicidade. As pessoas vivem procurando a felicidade, ela está disponível, está disponível no momento presente, não no passado ou futuro. A infelicidade é que é construída, construída por nós mesmos com nossas mentes. 

1246_628807643815752_245273333_nSidharta Gautama era um jovem angustiado. Pensava no futuro, tudo acaba em velhice, doença e morte. Quando ele viu a face de um asceta e percebeu seu rosto tranquilo, resolveu largar tudo, sua família, seus pais e seu palácio. Partiu para a floresta onde ficou seis anos praticando ioga, meditação e fazendo jejuns constantes. Mesmo assim não conseguiu seu objetivo. Após esse período ele sentou-se sob uma árvore e prometeu a si mesmo não levantar-se enquanto não solucionasse os problemas do sofrimento. Após sete dias, no amanhecer do oitavo dia ele vê a primeira estrela da manha e diz: “Que maravilha! Eu, a grande Terra e todos os seres simultaneamente atingimos a iluminação!” Ele entendeu que seu “eu” era uma construção e diz para si mesmo: “Você não me enganará mais”. Sua descoberta é que o “eu” é uma construção de nossa mente e de sucessões de pensamentos. Porque pensamos sem parar pensamos que somos nós. Esse ser que acredita em si mesmo, nasce e morre. Ele é um fenômeno. Tudo que nasce, envelhece, adoece e morre. Ele descobre que não é isso, que é algo muito mais profundo. Vou tentar explicar com analogias. 

O vento não existe por si mesmo, ele é um movimento do ar. As ondas não existem por si mesmas, são movimentos da água. Nós não existimos por nós mesmos, somos movimentos dos pensamentos. 

Porque temos uma mente que pensa, pensamos “eu sou”. Por isso Descartes disse, ”penso logo existo”. Para o Budismo a frase correta é, “Penso, por isso penso que existo”. Somos uma ilusão ambulante com um cérebro fabricando continuamente a noção de um “eu”. Por estarmos continuamente fabricando a noção de um “eu” nos perdemos da interconexão, interdependência e da unidade de todas as coisas. 

Voltando à analogia da onda. Somos uma onda e não percebemos que somos mar. As ondas surgem e desaparecem, o mar não. As pessoas ficam tristes quando vêem uma onda morrer na beira da praia? Não, as pessoas olham o mar e dizem -”Que lindo”. Quando as pessoas olham as ondas quebrando, elas vêem o mar e sua verdadeira natureza, e sabem que as ondas são manifestações que surgem e desaparecem na sua superfície, sempre retornando a ser mar, a única realidade verdadeira. A dimensão suprema do oceano é o próprio oceano. As ondas vivem numa dimensão histórica, surgem e desaparecem, surgem e desaparecem continuamente. Isso é muito claro sobre o mar, não é? Mas não é igualmente claro sobre nós mesmos. 

Vemo-nos como ondas, pensamos que existimos e temos medo de morrer na beira da praia. Eu tenho medo de morrer. Porque não nos vemos como o próprio oceano, perdemos de visão nossa verdadeira natureza, só percebemos nossa natureza temporária, que surge e desaparece, sofremos e temos medo de morrer. Por termos esse medo e essa angústia existencial, inventamos religiões. As religiões existem para dar uma crença na continuidade do “eu”. Por isso inventamos almas e espíritos imortais. As religiões sempre fizeram isso. Os egípcios mumificavam seus corpos para sobreviver à morte. Os gregos acreditavam que após a morte os bons iriam para uma ilha onde a comida caía do céu e poderia se passar tempo discutindo filosofia. Para os Vikings o céu era uma eterna guerra de muitas batalhas e saques. Em todas as religiões há uma solução para salvar o “eu” após a morte. 

O Budismo não se encaixa facilmente como uma religião porque não tem nenhuma crença desse tipo para oferecer. O Budismo lhe diz: “Você está iludido e estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés”. 

Em um famoso diálogo Zen, o aluno chega para o Mestre e pergunta: “O que o senhor tem para me oferecer no Dharma?”, e o Mestre responde: “gostaria muito de lhe oferecer algo, mas no Dharma só há uma bola de ferro incandescente para ser engolida”. Essa bola é: “Você que tanto se ama não passa de uma ilusão de sua mente”. 

Se você deseja despertar como o Buda, tem que acordar do sonho. Por isso Sidharta Gautama era um homem comum que quando desperta passa a chamar-se Buda, “o desperto”. Como ele era um homem comum como todos nós, todos temos a mesma capacidade de despertar. Aquele que acorda livra-se instantaneamente de toda dor, ilusão e sofrimento. 

Nós construímos essa individualidade e nos agarramos à ela. A expressão do Eu ou do Ego não fará muita diferença ao final Essa visão parte de “si” em confronto com algo externo. Aí reside a maior dificuldade, porque não basta uma compreensão intelectual. 

Quando um aluno está preso às suas considerações mentais, o que se deve aconselhar é a prática de meditação sem pensamentos, além do pensar e não pensar. No redemoinho de seus próprios pensamentos, apenas confusão e orgulho podem surgir. Nenhuma saída será encontrada sem um mapa. Esta é a razão da existência dos mestres e do Caminho. Sem eles, o praticante anda em círculos, tentando reinventar a roda, tentando achar o caminho que arduamente foi desbravado por grandes mestres do passado. 

Então, o “eu ameaçado” tenta contestar tudo. É apenas o ego lutando para sobreviver, para não se entregar. Ele vê a sua morte rondando e tenta desesperadamente criar um mecanismo qualquer de sobrevivência, alegando sua própria habilidade, sua capacidade para achar um caminho próprio, dele mesmo, e portanto contaminado-se da noção de EU.

Fontes:

http://www.daissen.org.br/
http://opicodamontanha.blogspot.com.br/

Por que temos que esquecer nosso ego?

Não temos de esquecê-lo. Ele é necessário para transitar no mundo. Temos de perceber que ele é uma construção, nada permanente, mutável.

Por que, ao acabar essa luta contra o ego, o sofrimento acaba?

Não é por ter lutado com o ego que o sofrimento desaparece. É por ter ampliado seu ego a ponto de não haver mais separação entre ele e qualquer outro ser do universo. O universo é perfeito, sofrimento só existe onde há ego individual, o engano fundamental.

A liberdade184514_623502581012925_1806917455_n

O budismo ensina a iluminação, que é o oposto da ignorância. Iluminação é liberdade, ignorância é escravidão. Iluminação é ver as coisas tais como elas são. Quando à noite você vê uma corda na estrada e pensa que é uma cobra, você fica com medo; mas, se uma luz mais forte lhe permitir ver a corda como uma corda, não haverá medo. Se o indivíduo é capaz de ver as coisas tais como elas são, ele é livre. A ignorância é a causa de todos os problemas. Cometemos muitas tolices por causa da nossa ignorância. Ser ávido, ficar furioso, fazer queixas infundadas – todas estas causas de sofrimento são resultados da ignorância. Ser livre ou alcançar a liberdade é superar a ignorância, e isto é iluminação.

É freqüente pensarmos que os outros atrapalham a nossa liberdade. A esposa culpa o marido, o marido culpa a esposa. Muitas vezes culpamos a sociedade e condenamos o “sistema”. Mas não é o meio ambiente que nos torna miseráveis ou nos priva da nossa liberdade. Por melhor que seja o meio ambiente, a menos que sua mente esteja livre você não conseguirá ser uma pessoa livre. Alguém me disse, um dia, que queria ser livre; mas, quando o semáforo vermelho o deteve numa esquina ele sentiu que não era livre. Para mim, o semáforo vermelho não é um obstáculo; eu não o avanço porque isto é perigoso. Eu trabalho porque quero trabalhar e não porque devo trabalhar. Eu ajudo as pessoas porque quero ajudá-las e não porque devo ajudá-las.

Este mundo é livre. Nossa vida é livre. Este mundo é o mundo do nirvana. O nirvana não é alguma coisa que conquistamos ou agarramos. Pelo contrário, descobrimos a nós mesmos no mundo do nirvana, o verdadeiro mundo livre no qual estamos vivendo. O nirvana é exatamente aqui, agora. O céu e o inferno não são lugares para onde vamos depois da morte. Eles estão aqui, agora. Eles são o conteúdo da nossa própria vida. Nós criamos um lugar celeste ou infernal. Nós somos responsáveis. É a nossa ignorância que obscurece todo o nosso mundo. Quando nos iluminamos, todo o mundo se aclara.

Não é o diabo que traz escuridão e miséria, nem os deuses que trazem felicidade ou clareza. Cabe a nós tornar nossa vida clara ou escura, ser livres ou viver em escravidão. A liberdade existe em nós. A liberdade não existe no mundo das relações e das comparações, mas apenas no mundo da unidade, do absoluto. Só quando sujeito e objeto se tornam um, existe a liberdade.

Viver a Vida

vida1Viver a vida é uma preocupação de todos nós, a mais importante das nossas preocupações. Eu me pergunto quantas pessoas estão realmente vivendo a vida. Você está vivendo ou apenas existindo? A verdadeira paz e alegria da vida está baseada em viver a vida. No meu entender, muitas pessoas que são impacientes, nervosas, sempre se queixando, cansadas, aborrecidas e indiferentes, não estão vivendo a vida. Pelo contrário, a pessoa que está vivendo a vida é alegre, vibrante, criativa, em pleno desabrochar interior; ela percebe o significado da vida e aprecia o trabalho ao qual se dedica.
Um dia, Buda chegou a uma aldeia e viu três pedreiros trabalhando. 

Perguntou a um deles:
— O que você está fazendo?

— Estou assentando tijolos – foi a resposta. Buda fez a mesma pergunta ao segundo pedreiro e ele respondeu:

— Estou ganhando meu dinheiro.

Quando Buda se aproximou do terceiro homem e lhe perguntou o que estava fazendo, ele levantou os olhos para Buda e exclamou:
— Estou construindo um templo.

Seu rosto era radiante e cheio de esperança. Este homem estava vivendo.

Todos nós precisamos viver a vida – nossa própria vida. Mas esta vida muito pessoal não é isolada e independente. A verdadeira vida é sempre uma com a vida universal, e, contudo, é ao mesmo tempo singularmente independente dela. A verdadeira vida é nunca sacrificar nem ser sacrificado. A verdadeira vida é sempre criativa e desabrocha do nosso interior. Portanto, é uma arte de viver. Uma pessoa é um artista da vida, qualquer que seja sua ocupação.

Num jardim há rosas, gladíolos, cravos, lírios e cosmos. Cada uma destas flores, isolada, é bela; porém, juntas, em harmonia, elas também embelezam todo o jardim em cada estação do ano. Algumas plantas erguem-se para os céus, outras são trepadeiras e outras rasteiras; todas têm seu lugar e cada uma é bela em seu lugar. Não existe complexo de superioridade ou complexo de inferioridade. Não existe ciúme ou inveja. A vida apenas realiza a si mesma. A vida às vezes é dura, às vezes suave. A vida apenas é. Viva-a.

As flores vermelhas têm luz vermelha, as flores amarelas têm luz amarela, as flores verdes têm luz verde e as flores brancas têm luz branca. Quando a vida é pintada sobre uma tela, torna-se um belo quadro; quando a vida é manifestada sob a forma de ritmo, torna-se uma música inspiradora; quando a vida é posta em palavras, ela é um belo poema. Tanto o capital como o trabalho são importantes na indústria; ninguém pode dizer qual deles é o mais importante. Ambos são igualmente importantes. O piano e o cesto de lixo, a sala e o banheiro – tudo é igualmente importante. O gari, o pedreiro, o médico, o industrial – todos são importantes. Todos precisam respeitar-se mutuamente. Cada um deve brilhar no lugar que ocupa e sendo aquilo que são. Cada um deve ser o melhor sem qualquer comparação. Cada um deve viver a sua vida.

Não seja impaciente; esqueça a autopiedade. Viva a vida. Seja o artista da sua própria vida. Quando vivemos a vida, não existe argumentação, não existe discussão. Existe somente a vida – viva e luminosa.

Nossa vida tornou-se muito artificial e superficial; precisamos pôr os pés no chão e ser naturais. Todos os poemas do Japão e da China expressam a realidade ou as impressões da vida humana e sempre terminam na unidade com a natureza.
Só quando nos tornamos unos com a natureza é que seremos capazes de resolver nossos problemas. Quando alcançamos uma perfeita harmonia com a natureza, tornamo-nos uno com ela. É viver como o desabrochar das flores, como o brilho do sol. É ser verdadeiramente nós mesmos. Isso é naturalidade. As crianças são encantadoras porque são naturais; elas não fingem nem mostram artificialidade.

Ser uno com a natureza é não ter preocupações desnecessárias nem desejar que as coisas sejam diferentes do que são. É encarar a realidade e viver a vida verdadeiramente. Temos, é claro, muitas preocupações e precisamos elaborar planos; mas isto é o máximo que o homem pode fazer. No fim, as coisas devem se harmonizar com a natureza. É um grande erro dizer, “conquiste a natureza!”, pois nunca poderemos conquistá-la; podemos apenas nos harmonizar com ela. Shinran chamou a isso “jinen honi”, seguir a lei do dharma, os ensinamentos, viver com o próprio dharma, a fonte da paz interior.

A vida da naturalidade vai além das ínfimas preocupações e dúvidas humanas. A natureza cuida de si mesma. No ramo da medicina fizemos grandes avanços, mas existe um limite para aquilo que os médicos e os remédios podem fazer. Podemos apenas nos harmonizar com a natureza, pois a própria natureza deve ser a cura. Todos os nossos esforços são um complemento à natureza e às suas atividades.

A vida da naturalidade é uma vida de liberdade, uma vida onde não existe qualquer necessidade de preocupações inúteis, uma vida onde existe completa unidade com a lei da natureza – não conquistar e, sim, harmonizar. É uma vida sem artificialismo ou superficialidade. O homem moderno tem um número excessivo de máscaras para usar. Precisamos tirar as máscaras e ser nós mesmos, com sinceridade e convicção, e viver verdadeiramente como somos

Budismo Essencial


Auto-centramentoconfusao-mental-e-ansiedade

(…) Auto-centramento não é uma boa expressão. Auto-centramento significa bolhas estreitas de diversos tipos.

Na nossas ações no mundo nós podemos trabalhar com bolhas estreitas. Bolha estreita é o seguinte: “aquilo que acontece dentro do meu carro eu razoavelmente me interesso. O que não me interesso eu jogo para fora do carro. O que está pra frente no tempo ou pra trás no tempo também não me interessa. O que me interessa é aquilo, limitado. Então o que eu faço que produz consequências para frente no tempo ou aquilo que está para traz que pode me apoiar eu nem vejo. Eu só olho assim, como um fogo que queima, uma coisa local”.

Outras pessoas ao contrário pensam com sentido de gratidão pelo que veio antes e olham com cuidado para os que vem depois. Elas olham consigo e o que acontece com os outros ao redor agora. Isso é uma inteligência maior, no mínimo uma bolha maior, uma bolha mais cuidadosa.

Quando nós temos uma percepção mais ampla nossa vida fica melhor, quando temos uma percepção mais estreita, auto-centrada, nós vamos acabar com problemas.

Se vocês olharem, por exemplo, as plantas, elas tem um sentido muito interessante. Se vocês tentarem olhar a inteligência delas, elas são apenas benignas. Elas se expandem calmas, serenas, são capazes de estar numa grande avenida barulhenta, elas apenas se expandem, olham pro sol, se ampliam, produzem sombra, melhoram o ar, acolhem os pássaros, elas seguem fazendo a parte delas.

Se nós pensarmos que elas tem uma “mente ampla” isso seria a grande mente de um grande mestre, sereno no meio da grande confusão. 

Por outro lado se pensarmos que elas tem uma mente estreita, elas estão dentro de uma bolha onde só fazem a mesma coisa não importa o que acontece. Felizmente é uma coisa benigna não é, mas em princípio, elas não tem a capacidade de socorrer alguém, gerar uma intencionalidade, entender o outro no mundo dele e atuar. Mas o seres humanos tem essa possibilidade.

Porém o ser humano também pode se transformar em seres “parados” dentro das bolhas olhando um jogo estreito. Dentro desse jogo estreito para poder mantê-lo eles vão se prender.

Lama Padma Samten

Dissolver a auto-importância

A ideia fixa que temos de nós mesmos como sólidos e separados uns dos outros é dolorosamente limitadora.

É possível se mover dentro do drama de nossas vidas sem acreditar tão fervorosamente no papel que desempenhamos.

Levar-nos tão a sério, e nos dar tanta importância em nossas próprias mentes, é um problema para nós; nos sentimos justificados em ficar irritados com tudo, nos sentimos justificados em nos autodenegrir ou em achar que somos mais espertos que as outras pessoas.

A auto-importância nos machuca, limitando-nos ao estreito mundo de nossos gostos e desgostos. Terminamos morrendo de tédio com nós mesmos e nosso mundo. Terminamos nunca satisfeitos.

Temos duas alternativas: ou questionamos nossas crenças ou não. Ou aceitamos nossas versões fixas sobre a realidade, ou começamos a desafiá-las. Na opinião do Buda, treinar em permanecer aberto e curioso — treinar em dissolver nossas suposições e crenças — é o melhor uso para nossas vidas humanas.

Pema Chodron

download (3)Alternativa ao centro no eu

“Vacuidade” (“shunyata” em sânscrito) tem muitos significados sutis no budismo, mas talvez isso possa ser compreendido de modo mais simples como a ausência de centramento no eu. Geralmente consideramos o centramento no eu como um problema de personalidade, algo que faria nossos amigos nos recomendar terapia. Mas “centramento no eu” tem um significado mais fundamental.

Isso ocorre quando criamos ou mantemos a ideia de um eu no centro de nossas vidas, um ponto de referência para tudo que pensamos e sentimos. O centro no eu é uma ideia ou sentimento de alguém por trás de todas as experiências, alguém a quem isso está acontecendo.

A maioria de nós vive no campo gravitacional desse centro em si, circulando em volta das esperanças e medos, planos e preocupações, nosso trabalho e relacionamentos. Nossas vidas parecem girar em torno do desejo por experiências sempre novas, mesmo que as vejamos mudando constantemente.

Mas com atenção inteligente sustentada, através do poder da consciência plena e investigação, começamos a deixar essa familiar órbita auto-referencial. Começamos e ter vislumbres do centro zero da vacuidade, em vez do auto-centramento do ego ansiando, e isso se torna a nova força gravitacional de nossas vidas. Podemos ver insinuações disso em nossas vidas ordinárias quando entramos em um estado de fluxo sem esforço, ou talvez com música, arte ou esporte. As coisas parecem continuar sem nós mesmos — e são muito melhores assim.

Pergunta – Esse abandono do eu e do ego e a vontade da vida, isso fica um pouco confuso…

Monge Genshô – É porque pensamos que o eu é que vive. Mas não é o eu que vive a vida. A vida é que nos vive. Nós somos a própria vida. Não é um eu que esta vivendo a vida. Não é uma folha numa árvore lá fora que está vivendo a floresta, é a floresta que produz folhas. Nós somos a própria floresta, não somos folhas. As folhas nascem e morrem. Seria muito tolo que uma folha se sentisse muito infeliz porque amarelece e cai, nós diríamos que a folha é tola, pois torna-se húmus, nasce de novo, ela é a própria vida, não há nenhuma tristeza nas folhas que caem das árvores. Ninguém chora as folhas que caem no outono, pois nós sabemos que a vida produz primavera, mas quando olhamos para nós mesmos, confundimos o eu com a vida, nós pensamos que é o eu que vive a vida, e não é isso. A vida é que nos vive. Somos a própria vida. É por isso, porque a vida está sempre continuando, que nascimento e morte também são ilusões. Não há como você ir embora daqui, você é a vida. Então desse seu eu temporário é só um evento extemporâneo da vida como um todo. É como o quebrar das ondas do mar, como as folhas que caem e viram húmus, é como as nuvens que chovem. Se uma nuvem vira água e chove ninguém diz – Coitadinha da nuvem, virou chuva – nós sabemos que a chuva cai, que as plantas crescem por causa disso, que nós vivemos por causa disso, um dia ela evapora e volta a ser nuvem. Não damos nomes às nuvens e dizemos que elas tem identidades e não dizemos – Lá vai a nuvem Joana, coitada, vai morrer hoje pois esfriou e ela vai chover até se acabar – mas fazemos isso conosco e isso mostra nossa cegueira.

Pergunta – Por que?

Monge Gensho – Porque o eu é muito nítido, muito forte, você abre os olhos e vê os outros. Você tem ouvidos e ouve sons. E você pensa “Ah, isso sou eu!” Isso não é você, isso são sons, é a visão, são cheiros. Por que você pensa que é o que ouve, o que vê, o que cheira, o que prova? Nós pensamos que nossa mente somos nós mesmos, essa conformação mental é nossa consciência. Esse que pensa como Descartes “Penso, logo existo”. Eu penso, logo eu existo. Não é isso. Eu penso, por isso penso que existo. Esse pensar não fez um eu. Assim como a chuva que cai não faz nada, não faz um eu. Nós pensamos, só pensamos. Esse pensar nos atrapalha, cria a ilusão de um eu. Por isso sentamos e tentamos fazer com que nossa mente se acalme. Porque quanto mais ela cogita, mais ela se agarra à sua identidade e tem medo que sua identidade desapareça. Tem tanto medo que a identidade desapareça que cria fantasias religiosas. Eu vou continuar para sempre, eu tenho uma alma eterna. Quem morre não sou eu, é só o corpo, eu continuo depois. Vemos isso nos desenhos animados. Tom o gato morre e a alma dele vai saindo do corpo, e ele consegue agarrar pelo rabo e puxa de volta. Nós criamos essas fantasias, mas não existe uma alma eterna. Nós somos movimento da vida. Nós somos eternidade. Nós temos continuidade sim, há continuidade, não há com ir embora. A morte é que é uma ilusão.

http://opicodamontanha.blogspot.com.br/2013/10/a-vida-e-que-nos-vive.html

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