setembro 24

Felicidade e Prazer: A grande confusão!

FALSOS AMIGOS, trechos do livro ”Felicidade – A pratica do Bem Estar”

Aqueles que buscam a felicidade nos prazeres, na riqueza, na glória, no poder e no heroísmo são tão ingênuos quanto uma criança que tenta pegar o arco-íris para vesti-lo como um casaco.

DILGO KHYENTSE RIMPOCHE

 Para identificar quais são os fatores externos e as atitudes mentais que favorecem a felicidade genuína, e os que são prejudiciais a ela, convém primeiro estabelecer uma distinção entre a felicidade e certos estados que, apesar de terem com ela muitas similaridades aparentes, na realidade são muito diferentes.

FELICIDADE E PRAZER: A GRANDE CONFUSÃO

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O erro mais comum é confundir o prazer com a felicidade. O prazer, diz um provérbio hindu, “é somente a sombra da felicidade”. É o resultado direto dos estímulos prazerosos no âmbito sensual, estético ou intelectual. A fugaz experiência do prazer depende de circunstâncias, de um lugar específico ou de um momento no tempo. É instável por natureza e a sensação evocada logo se torna neutra ou até desagradável. Da mesma maneira, se for repetida, pode tornar-se insípida ou até levar a repulsa. Saborear uma refeição deliciosa é uma fonte de prazer genuíno, mas ficaremos indiferentes a ela assim que estivermos satisfeitos e poderemos até nos sentir mal se continuarmos a comer. A mesma coisa acontece com uma boa fogueira: quando estamos encolhidos de frio, é um grande prazer nos aquecermos com seu calor, mas logo temos de nos afastar para não nos queimarmos.

O prazer se exaure com a rotina, como uma vela que consome a si mesma. Ele quase sempre está ligado a uma ação, uma atividade e leva ao tédio pelo simples fato de repetir-se. Ouvir em êxtase um prelúdio de Bach requer uma atenção que, por menor que seja, não pode ser mantida indefinidamente. Depois de um tempo, o cansaço entra em cena e a música perde seu encanto. Se fôssemos forçados a ouvi-la por dias e dias, iria tornar-se intolerável.

 Além disso, o prazer é uma experiência individual, centrada no eu, que pode com facilidade deteriorar-se em egoísmo e entrar em conflito com o bem-estar dos outros. Na intimidade sexual é claro que pode haver prazer mútuo no dar e receber sensações prazerosas, mas esse prazer só pode transcender o eu e contribuir para a felicidade genuína se a natureza da mutualidade e do altruísmo generoso estiver no seu âmago. É possível sentir o prazer à custa de outra pessoa, mas isso não traz felicidade. O prazer pode estar associado à crueldade, à violência, ao orgulho, à ganância e a outras condições mentais que são incompatíveis com a verdadeira felicidade. “O prazer é a felicidade dos loucos, enquanto a felicidade é o prazer dos sábios”, escreveu o romancista e crítico francês Jules Barbey d’Aurevilly.

Algumas pessoas sentem prazer até em vingar-se e em torturar outros seres humanos. Desse ponto de vista, um homem de negócios pode regozijar-se com a ruína de um competidor, um ladrão contemplando o fruto do roubo, um espectador de uma tourada com a morte do touro. Mas esses são estados de exaltação passageiros, às vezes mórbidos, que, como os momentos de euforia positiva, não têm nada a ver com sukha, a felicidade genuína.

 A procura exacerbada e quase mecânica dos prazeres sensuais é outro exemplo da gratificação intimamente ligada à obsessão, à avidez, à inquietude e, de certa forma, ao desencanto. Na maioria das vezes, o prazer não cumpre as promessas que faz, como descreve o poeta escocês Robert Burns em “Tom O’Shanter”:

                         Mas os prazeres são como a papoula,

                        Nem bem colhida, já desfeita;

                        Ou como a neve caindo sobre o rio,

                        Clarões brancos para sempre desparecidos

Diferentemente do prazer, o florescer genuíno de sukha pode ser influenciado pelas circunstâncias, mas não depende delas. Ele perdura e aumenta com a experiência. Gera um sentimento de plenitude que, no tempo devido, se torna uma segunda natureza.

        A felicidade autêntica não está ligada a uma ação, a uma atividade, mas é um estado de ser, um profundo equilíbrio emocional decorrente de uma sutil compreensão do funcionamento da mente. Enquanto os prazeres ordinários se produzem no contato com objetos agradáveis e terminam quando esse contato se interrompe, sukha – o bem-estar duradouro – é sentido ao longo de todo o tempo em que permanecemos em harmonia com nossa natureza interior. Um aspecto intrínseco desse bem-estar é o seu altruísmo, que irradia do interior do ser, em vez de focalizar-se no eu. Quem está em paz consigo mesmo contribui espontaneamente para estabelecer a paz em sua família, em sua vizinhança e, se as circunstâncias permitirem, na sociedade como um todo.prazer-de-viver1

Em resumo, não há relação direta entre o prazer e a felicidade. Essa distinção não significa que não se devam buscar sensações agradáveis. Não há razão para nos privarmos do deleite diante de uma paisagem magnífica, da sensação de nadar no mar, do perfume de uma rosa, da doçura de uma carícia ou da beleza de uma melodia. Os prazeres tornam-se obstáculos somente quando perturbam o equilíbrio da mente e nos levam a obsessão por gratificações ou a uma aversão a tudo que possa impedi-los.

 Apesar de ser intrinsicamente diferente da felicidade, prazer não é inimigo dela. Tudo depende da maneira como é vivido. Se o prazer está contaminado com um forte desejo e impede a liberdade interior, dando origem à avidez e à dependência, é um obstáculo à felicidade. Por outro lado, se é vivido no momento presente, num estado de paz interior e liberdade, o prazer adorna a felicidade sem obscurecê-la. Uma experiência sensorial agradável, seja ela visual, auditiva, tátil, olfativa, seja gustativa, não estará em oposição a sukha a menos que esteja maculada pelo apego e gere avidez ou dependência. O prazer torna-se suspeito quando provoca uma necessidade insaciável de repetição.

  Por outro lado, quando é vivido perfeitamente no instante presente, como um pássaro que cruza o céu sem deixar nenhum rastro, o prazer não aciona nenhum dos mecanismos de obsessão, sujeição, fadiga ou desilusão que costumam surgir quando experimentamos essas sensações. O desapego, como sabemos, não é uma rejeição, mas uma liberdade que prevalece quando deixamos de nos atar às causas do sofrimento. Em um estado de paz interior, com conhecimento lúcido de como funciona a nossa mente, um prazer que não obscurece sukha não é indispensável nem temível.

FELICIDADE X O PRAZER, trecho do livro ”A arte da Felicidade”

Alguns meses após as palestras do Dalai-Lama no Arizona, fui visitá-lo em casa em Dharamsala. Era uma tarde muito quente e úmida em julho, e cheguei à sua casa empapado de suor depois de uma curta caminhada a partir do lugarejo. Por eu vir de um clima seco, a umidade naquele dia me parecia quase insuportável, e eu não estava com o melhor dos humores quando nos sentamos para começar a conversar. já ele parecia estar animadíssimo. Pouco depois do início da conversa, nós nos voltamos para o tópico do prazer. A certa altura, ele fez uma observação crucial. 

— Agora, as pessoas às vezes confundem a felicidade com o prazer.
Por exemplo, há não muito tempo eu estava falando a uma platéia indiana em Rajpur. Mencionei que o propósito da vida era a felicidade, e alguém da platéia disse que Rajneesh ensina que nossos momentos mais felizes ocorrem durante a atividade sexual e que, logo, é através do sexo que podemos nos tornar mais felizes.

— O Dalai-Lama deu uma risada gostosa.

— Ele queria saber o que eu achava da idéia. Respondi que, do meu ponto de vista, a maior felicidade é a de quando se atinge o estágio de Liberação, no qual não mais existe sofrimento. Essa é a felicidade genuína, duradoura.

A verdadeira felicidade está mais relacionada à mente e ao coração. A felicidade que depende principalmente do prazer físico é instável. Um dia, ela está ali; no dia seguinte, pode não estar.

Em termos superficiais, sua observação parecia bastante óbvia. É claro que a felicidade e o prazer são sensações diferentes. E no entanto, nós, os seres humanos, costumamos ter um talento especial para confundi-las.
Não muito depois de voltar para casa, durante uma sessão de terapia com uma paciente, eu viria a ter uma demonstração concreta de como pode ser importante essa simples percepção.

Heather era uma jovem profissional liberal solteira que trabalhava como psicóloga na região de Phoenix. Embora gostasse do emprego que tinha, no qual trabalhava com jovens problemáticos, já havia algum tempo ela vinha se sentindo cada vez mais insatisfeita com a vida na região.
Costumava queixar-se da população crescente, do trânsito e do calor sufocante no verão. Fizeram-lhe a oferta de um emprego numa linda cidadezinha nas montanhas. Na realidade, ela já visitara a cidadezinha muitas vezes e sempre sonhara em se mudar para lá. Era perfeito. O único problema era que o emprego que lhe ofereciam envolvia o trabalho com uma clientela adulta. Havia semanas, ela lutava com a decisão de aceitar ou não o novo emprego. Simplesmente não conseguia se decidir. Tentou fazer uma lista de prós e contras, mas dela resultou um empate irritante.

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— Eu sei que não gostaria do trabalho lá tanto quanto do daqui, mas isso seria mais do que compensado pelo mero prazer de morar naquela cidade! Eu realmente adoro aquilo lá. Só estar lá já faz com que eu me sinta bem. E estou tão cansada do calor aqui que simplesmente não sei o que fazer.

Seu uso do termo “prazer” me fez lembrar as palavras do Dalai-Lama; e, procurando me aprofundar um pouco, fiz uma pergunta.
— Você acha que mudar para lá lhe traria maior felicidade ou maior prazer?
Ela ficou calada um instante, sem saber como encarar a pergunta.
— Não sei… — respondeu afinal. — Sabe de uma coisa? Acho que me traria mais prazer do que felicidade… Em última análise, acho que não seria realmente feliz trabalhando com aquela clientela. Acho que é mesmo muito gratificante trabalhar com os jovens no meu emprego…

A simples reformulação do seu dilema em termos de “Será que isso vai me trazer felicidade?” pareceu conferir uma certa clareza. De repente, ficou muito mais fácil para ela tomar a decisão. E resolveu permanecer em Phoenix. É claro que ainda se queixava do calor do verão. No entanto, decidir em plena consciência ficar em Phoenix, com base naquilo que ela achava que acabaria por fazê-la mais feliz, de algum modo tornou o calor mais suportável.

Embora não haja soluções fáceis para evitar esses prazeres destrutivos, felizmente temos por onde começar: o simples lembrete de que o que estamos procurando na vida é a felicidade. Como o Dalai-Lama salienta, esse é um fato inconfundível. Se abordarmos nossas escolhas na vida tendo isso em mente, será mais fácil renunciar a atividades que acabam nos sendo prejudiciais, mesmo que elas nos proporcionem um prazer momentâneo. O motivo pelo qual costuma ser tão difícil adotar o “É só dizer não!” encontrasse na palavra “não”. Essa abordagem está associada a uma noção de rejeitar algo, de desistir de algo, de nos negarmos algo.

Existe, porém, um enfoque melhor: enquadrar qualquer decisão que enfrentemos com a pergunta “Será que ela me trará felicidade?” Essa simples pergunta pode ser uma poderosa ferramenta para nos ajudar a gerir com habilidade todas as áreas da nossa vida, não apenas na hora de decidir se vamos nos permitir o uso de drogas ou aquele terceiro pedaço de torta de banana com creme. Ela permite que as coisas sejam vistas de um novo ângulo. Lidar com nossas decisões e escolhas diárias com essa questão em mente desvia o foco daquilo que estamos nos negando para aquilo que estamos buscando — a máxima felicidade. Uma felicidade definida pelo Dalai-Lama como estável e persistente. Um estado de felicidade que, apesar dos altos e baixos da vida e das flutuações normais do humor, permanece como parte da própria matriz do nosso ser. A partir dessa perspectiva, é mais fácil tomar a “decisão acertada” porque estamos agindo para dar algo a nós mesmos, não para negar ou recusar algo a nós mesmos — uma atitude de movimento na direção de algo, não de afastamento; uma atitude de união com a vida, não de rejeição a ela. Essa percepção subjacente de estarmos indo na direção da felicidade pode exercer um impacto profundo. Ela nos torna mais receptivos, mais abertos, para a alegria de viver.

FELICIDADE E ALEGRIA

 vida1A diferença entre felicidade e alegria é mais sutil. A felicidade genuína irradia-se espontaneamente para o exterior em forma de alegria. Mas nem sempre essa emoção interior manifesta-se de modo exuberante, podendo mostrar-se como uma apreciação leve e luminosa do momento presente que se estende ao momento seguinte, criando um contínuo que poderíamos chamar de joie de vivre. Sukha também pode ser enriquecida por surpresas, alegrias intensas e inesperadas, que são para ela como as flores da primavera. E, no entanto, nem todas as formas de alegria provêm de sukha – longe disso. Como enfatiza Christophe André em seu trabalho sobre a psicologia da felicidade: “Há alegrias nada saudáveis e muito distantes do sentimento sereno de felicidade, como a alegria da vingança. […] Existem também as felicidades calmas, muitas vezes bem distantes da excitação inerente à alegria. […] Pulamos de alegria, não de felicidade.”

  Vimos como é difícil chegar a um acordo quanto à definição de felicidade e precisar o significado da verdadeira felicidade. A palavra alegria é igualmente vaga, já que, como mostrou o psicólogo Paul Ekman, está associada a emoções tão variadas quanto os prazeres proporcionados pelos cinco sentidos: a diversão (do sorriso leve à gargalhada); o contentamento (um tipo mais calmo de satisfação); a excitação (em resposta a uma novidade ou um desafio); o alívio (que sucede a uma emoção, como o medo, a ansiedade e, às vezes, até o prazer); o maravilhamento (diante de algo surpreendente, admirável ou que ultrapasse o entendimento); o êxtase ou bem-aventurança (que nos transporta para além de nós mesmo); a exultação (por ter conseguido realizar uma tarefa difícil ou uma exploração ousada); orgulho radiante (quando os nossos filhos são merecedores de alguma honraria especial); a elevação (por ter testemunhado um ato grande bondade, generosidade ou compaixão); a gratidão (a apreciação de um ato desapego do qual somos beneficiários); e o júbilo doentio, Shadenfreude em alemão (apreciar o sofrimento do outro, como no caso da vingança).  Podemos ainda acrescentar o regozijo (com a felicidade de outrem); o deleite ou encantamento (um tipo radiante de contentamento); e a radiância, o brilho, o resplendor espiritual (uma alegria serena que nasce de um estado profundo de bem-estar e benevolência), que na realidade é mais um estado de ser duradouro do que uma emoção passageira.

  Todas essas emoções possuem um elemento de alegria, geralmente trazem um sorriso à face, e manifestam-se por uma expressão e tom de voz específicos. Mas para que tragam alegria ou contribuam para ela, devem estar livres de qualquer emoção negativa. Se acompanhada de raiva ou inveja , a alegria extingue-se abruptamente. Com a chegada furtiva do apego, do egoísmo ou de orgulho, ela é lentamente sufocada.

  Para que a alegria dure e amadureça com serenidade – para que seja, nas palavras de Corneille, um “florescimento do coração” – ela deve estar associada a outros aspectos da verdadeira felicidade: lucidez, clareza mental, bondade amorosa, enfraquecimento gradual das emoções negativas, desaparecimento do egoísmo e eliminação dos caprichos do ego.

VIVER INTENSAMENTE!

 

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            “Viver intensamente” tornou-se o leitmotiv do homem moderno. Trata-se de uma hiperatividade compulsiva sem qualquer pausa, sem brecha de tempo não-agendado, por medo de se encontrar consigo mesmo. Pouco importa o significado da experiência, desde que ela seja intensa. Vêm daí o gosto e a  fascinação pela violência, a exploração, a excitação máxima dos sentidos, os esportes radicais. É preciso descer as cataratas do Niágara dentro de um barril, só abrir o pára-quedas a alguns metros do solo, mergulhar a sem metros de profundidade em apnéia. É preciso arriscar a vida por aquilo que não vale a pena ser vivido, superar-se para ir a lugar nenhum. Então, liguemos a todo volume cinco rádios e dez televisores ao mesmo tempo, batamos a cabeça no muro e rolemos na graxa e no óleo diesel. Isso sim é viver plenamente!

            Sentimos que a vida sem atividade constante seria fatalmente insípida. Amigos meus que foram guias em excursões culturais na Ásia contaram-me que seus clientes não conseguiam suportar a menor brecha no itinerário. “Não há mesmo nada agendado entre as cinco e as sete?”, perguntavam eles, ansiosos. Temos, ao que parece, muito medo de olhar para nós mesmos. Estamos completamente focados no mundo exterior, da maneira como é experienciado pelos cinco sentidos. Parece ingênuo acreditar que uma busca tão febril de experiências intensas possa levar a uma qualidade de vida rica e duradoura.

            Se dedicamos algum tempo para explorar nosso mundo interior, só o fazemos sonhando acordados, fixados na imaginação e no passado ou fantasiando infinitamente sobre o futuro. Um sentimento genuíno de realização, associado à liberdade interior, também pode oferecer intensidade a cada momento da vida, mas de um tipo muito diferente. Trata-se de uma experiência cintilante de bem-estar interior, em que brilha a beleza de cada coisa. Para que isso ocorra é preciso saber desfrutar o momento presente, com vontade de alimentar o altruísmo e a serenidade, trazendo para o amadurecimento a melhor parte de nós – modificar a si mesmo para melhor transformar o mundo.

 

UMA INTENSIDADE ARTIFICIAL

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            Podemos imaginar que a súbita obtenção de fama ou de riqueza satisfaria todos os nossos desejos, mas na realidade é quase certo que a satisfação obtida com essas realizações teria vida curta e não contribuiria em nada para aumentar o nosso bem-estar. Encontrei um famoso cantor de Taiwan que, tendo descrito seu desconforto e desencanto com a fama e a fortuna, rompeu em lágrimas, gritando: “Ah, se eu pudesse não ter ficado famoso!” Estudos mostraram que uma situação inesperada – ganhar na loteria, por exemplo – pode levar a pessoa a sentir mais prazer por algum tempo, mas a longo prazo não altera sua disposição para a felicidade ou infelicidade. A grande maioria das pessoas estudadas que ganharam na loteria passou por um período de exaltação logo depois do golpe de sorte, mas um ano depois o nível de satisfação tinha voltado ao habitual. 3 E, ás vezes, um evento como esse, presumivelmente invejável, desestabiliza a vida do “feliz vencedor”.

            O falecido psicólogo Michael Argyle cita o caso de uma mulher inglesa de vinte e quatro anos que ganhou na loteria um prêmio de mais de um milhão de libras esterlinas. Ela largou o emprego e entregou-se ao ócio. Comprou uma casa nova num bairro elegante e descobriu-se abandonada pelos amigos; comprou um carro extravagente, mesmo sem saber dirigir; comprou montanhas de roupas, a maior parte das quais nunca saiu de dentro do armário; frequentava restaurantes finos, mas preferia comer peixe com batatas fritas. Um ano depois, sofria de depressão, pois sua vida estava vazia e desprovida de qualquer satisfação.

            Todos sabemos como a nossa sociedade de consumo é esperta e incansável em inventar um sem-número de prazeres fictícios, e em, laboriosamente, desenvolver estimulantes com o propósito de nos manter em estado constante de tensão emocional, que na verdade nos leva a um tipo de anestesia mental. Um amigo tibetano que contemplava os painéis luminosos de propaganda em Nova Iorque comentou: “Eles estão tentando roubar as nossas mentes.” Há uma clara diferença entre a verdadeira alegria, que é a manifestação natural do bem-estar, e a euforia ou exaltação causadas por excitações passageiras. Qualquer excitação superficial que não esteja ancorada em um contentamento duradouro quase invariavelmente é seguida pelo desapontamento.

 

O SOFRIMENTO E A INFELICIDADE

 

            Assim como fizemos uma diferenciação entre a felicidade e o prazer, podemos também fazer uma distinção entre o sofrimento e a infelicidade. Passamos pelo sofrimento, mas criamos a infelicidade. A palavra sânscrita dukha, o oposto de sukha, não define apenas uma sensação desagradável, mas reflete uma vulnerabilidade fundamental ao sofrimento e à dor, que podem, em última instância, levar à sensação de exaustão com relação ao mundo e ao sentimento de que não vale a pena viver, porque não é possível encontrar um sentido para a vida. Sartre coloca estas palavras na boca do protagonista do livro A náusea

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Se alguém tivesse me perguntando o que significa estar vivo, eu de boa-fé teria respondido que não significa nada, é meramente um recipiente vazio […]. Nós somos apenas um monte de vidas impraticáveis, todos perturbados consigo mesmos. Não tínhamos a menor razão para estar aqui, nenhum de nós. Cada ser vivo, confuso, obscuramente ansioso, sentindo-se supérfluo… Eu era supérfluo também […] Tina confusas ideias sobre acabar comigo mesmo, para livrar o mundo de pelo menos uma dessas vidas supérfluas. 


A crença de que o mundo seria melhor sem a nossa presença é uma causa frequente de suicídio.
            


  Um estudo realizado com tetraplégicos mostrou que, apesar de a maior parte deles admitir ter inicialmente pensado no suicídio, um ano depois da paralisia somente 10% considerava ter uma vida miserável, enquanto a maior parte julgava a sua vida boa.              O sofrimento pode ser provocado por numerosas causas, sobre as quais às vezes temos algum poder e às vezes nenhum. Nascer com uma deficiência, cair doente, perder alguém que amamos, presenciar uma guerra ou um desastre natural. Essas situações estão além do nosso controle. A infelicidade é completamente diferente, já que é o modo pelo qual vivenciamos o nosso sofrimento. A infelicidade pode de fato estar associada à dor física e moral infligida por circunstâncias exteriores, mas não está essencialmente ligada a ela.

            Já que a mente que traduz o sofrimento em infelicidade, é da responsabilidade da mente dominar a percepção que tem do sofrimento. A mente é maleável. Uma mudança, mesmo que pequena, no modo como lidamos com os nossos pensamentos, como percebemos e interpretamos o mundo, pode transformar significativamente a nossa existência. Mudar o modo como experienciamos as emoções transitórias leva a uma alteração da nossa disposição, do nosso ânimo, provocando uma transformação duradoura na nossa maneira de ser. Essa “terapia” tem como alvo os sofrimentos que afligem a maior parte de nós e busca promover o nosso florescimento, dando-nos uma orientação para a vida.

 

EXERCÍCIO: Distinguir entre felicidade e prazer Young Woman Meditating on the Floor

Traga à sua mente uma experiência passada em que você sentiu prazer físico, com toda a intensidade. Lembre-se de como você desfrutou essa experiência no início e como ela foi se transformando em um sentimento neutro, talvez até despertando cansaço ou falta de interesse. Ela trouxe a você uma realização interior duradoura?

Lembre-se, então, de uma ocasião em que tenha sentido alegria interior e felicidade. Recorde-se do que sentiu, por exemplo, quando fez outra pessoa realmente feliz, ou um momento calmo em que desfrutou a companhia de alguém que ama, ou ainda quando contemplou uma bela paisagem. Perceba o efeito duradouro que essa experiência teve em sua mente e como ela alimenta, ainda hoje, sentimento de realização. Compare a qualidade desse estado de ser como o anterior, produzido por uma sensação passageira de prazer.

            Aprenda a valorizar esses momentos de profundo bem-estar e aspire a encontrar maneiras para desenvolvê-los cada vez mais.

O CONTENTAMENTO INTERIOR

Ao atravessar o estacionamento para ir me encontrar com o Dalai-Lama numa tarde, parei para admirar um Toyota Land Cruiser novinho em folha, o tipo de carro que vinha querendo havia muito tempo. Ainda com o carro na cabeça quando comecei minha sessão, fiz uma pergunta.

– Às vezes parece que toda a nossa cultura, a cultura ocidental, se baseia nas aquisições materiais. Vivemos cercados, bombardeados, por anúncios das últimas novidades a comprar, do último modelo de automóvel e assim por diante. É difícil não ser influenciado por isso. São tantas as coisas que queremos, que desejamos.

Parece que não têm fim. O senhor poderia falar um pouco sobre o desejo?

– Creio que há dois tipos de desejo – respondeu o Dalai-Lama. – Certos desejos são positivos. O desejo da felicidade. É absolutamente certo. O desejo da paz. O desejo de um mundo mais harmonioso, mais amigo. Certos desejos são muito úteis.

Girl eating spaghetti at table“Mas, a certa altura, os desejos podem tornar-se absurdos. Isso geralmente resulta em problemas. Ora, por exemplo, eu às vezes visito supermercados. Realmente adoro supermercados porque posso ver muita coisa bonita. E assim, quando olho para todos aqueles artigos diferentes, surge em mim uma sensação de desejo, e meu impulso inicial poderia ser: `Ah, eu quero isso e mais aquilo’. Brota então um segundo pensamento e eu me pergunto: `Ora, será que eu preciso mesmo disso?’ Geralmente a
resposta é `não’. Se obedecermos àquele primeiro desejo, àquele impulso inicial, muito em breve estarem de bolsos vazios.

No entanto, o outro nível de desejo, baseado nas nossas necessidades essenciais de alimentação, vestuário e moradia, é algo mais razoável.

“Às vezes, determinar se um desejo é excessivo ou negativo é algo que depende das circunstâncias ou da sociedade em que se vive. Por exemplo, para quem vive numa sociedade afluente na qual é preciso um carro para ajudar a pessoa a cumprir a rotina diária, nesse caso não há nada de errado em querer ter um carro. Porém, se a pessoa mora num lugarejo pobre na Índia, onde se pode viver muito bem sem um carro, e ainda sente o desejo de ter um, mesmo que disponha do dinheiro para comprá-lo, essa compra pode acabar causando problemas. Pode gerar um sentimento de perturbação entre os vizinhos, entre outras coisas. Ou, caso se viva numa sociedade mais próspera e se tenha um carro mas não se pare de querer carros sempre mais caros, isso também leva ao mesmo tipo de problema.”

– Mas eu não consigo ver como querer ou comprar um carro mais caro causa problemas para o indivíduo, desde que ele tenha condições para isso. Ter um carro mais caro do que os de seus vizinhos poderia ser um problema para eles (pois poderiam sentir inveja ou algo semelhante) mas ter um carro novo daria à pessoa, em si, uma sensação de satisfação e prazer.

O Dalai-Lama abanou a cabeça e respondeu com firmeza.

Não… A satisfação pessoal em si não pode determinar se um desejo ou ato é positivo ou negativo. Um assassino pode ter uma sensação de satisfação no momento em que comete o assassinato, mas isso não justifica o ato. Todas as ações condenáveis, a mentira, o roubo, o adultério, entre outras, são cometidas por pessoas que podem na ocasião ter um sentimento de satisfação. O que distingue um desejo ou ato positivo de um negativo não é a possibilidade de ele lhe proporcionar uma satisfação imediata mas, sim, se ele acaba gerando conseqüências positivas ou negativas. Por exemplo, no caso do anseio por bens mais caros, se ele estiver baseado numa atitude mental que simplesmente quer cada vez mais, a pessoa acaba atingindo um limite daquilo que consegue adquirir e se defronta com a realidade. E, quando ela chega a esse limite, perde toda a esperança, mergulha na depressão e assim por diante. É um perigo inerente a essa espécie de desejo.

“E, para mim, esse tipo de desejo excessivo gera a ganância, manifestação exagerada do desejo, baseada na exacerbação das expectativas. E, quando refletimos sobre os excessos da ganância, concluímos que ela conduz o indivíduo a uma sensação de frustração, decepção, a muita confusão e muitos problemas. Quando se trata de lidar com a ganância, um aspecto perfeitamente característico é que, embora ela decorra do desejo de obter alguma coisa, ela não se satisfaz com a obtenção. Torna-se, portanto, algo meio sem limites, como um poço sem fundo, e isso gera perturbação. Um traço interessante da ganância é que, apesar de seu motivo subjacente ser a busca da satisfação, mesmo depois da obtenção do objeto do seu desejo, a pessoa ainda não está satisfeita, o que é uma ironia. O verdadeiro antídoto para a ganância é o contentamento. Se a pessoa tiver um forte sentido de contentamento, não faz diferença se consegue o objeto desejado ou não. De uma forma ou de outra, ela continua contente.”

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Uma vez seduzidos pelo hábito de comprar para ter felicidade é difícil parar. Não importa o quanto já se comprou, se a dinâmica está enraizada, há sempre mais para adquirir, novos prazeres, outras pessoas a desbancar.

Há semelhanças entre comprar e o sexo casual: o desejo, a caça. a conquista, o prazer e depois a sensação de vazio. Comprar se transformou numa forma de lazer e satisfação. É o que as pessoas fazem no final de semana. O que você tem virou sinônimo do que você sabe, pois significa que você conhece o que há de mais sofisticado na existência. No entanto, esta dinâmica, é companhada por sentimentos de inveja, ganância e até de prazer diante da desgraça alheia. 

O resultado final é um sentimento de separação e vazio, de ser um fantasma que se pergunta: ”A vida é só isso?”

Mais: a felicidade sequer depende do quanto uma pessoa ganha, mesmo que seja muito e além da média. Lewis Lapham fez um estudo com norte-americanos de diferentes faixas salarais, perguntando quanto teriam que ganhar para considerar-se verdadeiramente felizes. 

O resultado demonstrou o seguinte: praticamente todos os entrevistados responderam que teriam que ganhar o dobro do que recebiam naquele momento. 

Logo, quem estava na faixa dos 50 mil dólares (cerca de 4 mil dólares ao mês) almejava 100 mil (cerca de 8 mil dolares ao mês). Da mesma forma, quem contabilizava 1 milhão de dolares ansiava por 2 milhões.
Esse foi o resultado: mesmo a riqueza acima do padrão médio de conforto faz pouca diferença em nossa felicidade.

O psicologo Tim Wilson, estudioso no assunto diz ”Não nos damos conta de como nos adaptamos rapidamente aos eventos prazerosos, fazendo eles um pano de fundo da vida. Qualquer coisa que nos aconteça se transforma em algo comum. E quando aquilo se torna comum, perdemos o prazer.
Então partimos para a proxima conquista e fazemos o mesmo erro, novamente.
Obviamente, a felicidade só é possivel no momento presente, qualquer seja seu salário.

Livro Calma no Caos

 

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EXERCÍCIO Como começar a meditar

Não importa quais sejam as circunstâncias externas que se apresentem na sua vida – sempre há, lá no fundo, bem dentro de você, um potencial pronto pra desabrochar. É um potencial de bondade amorosa, compaixão e paz interior. Tente entrar em contato com ele e vivenciá-lo – um potencial que está sempre presente, como uma pepita de ouro, no seu coração e na sua mente.

Esses recursos potenciais precisam ser desenvolvidos e amadurecidos para que você obtenha um sentimento mais estável de bem-estar. No entanto, esse processo não acontecerá por si. Você precisa desenvolvê-lo como uma habilidade. Para tanto, comece por conhecer melhor a sua própria mente. Este é o início da meditação.

 Sente-se calmamente, numa postura confortável mas equilibrada. Qualquer que seja o modo de sentar-se – com as pernas cruzadas, numa almofada, ou mais convencionalmente, numa cadeira – tente manter as costas eretas, mas sem ficar tenso. Apóie as mãos nos joelhos, nas coxas ou colo. Mantenha o seu olhar leve e dirigido para o espaço à sua frente, e respire naturalmente. Observe a sua mente, o ir e vir dos seus pensamentos. No começo, pode parecer que, ao serem observados, os pensamentos, em vez de diminuírem, tomem conta da sua mente, como se viessem aos borbotões de uma cachoeira. Apenas observe-os, à medida que surgem. Deixe-os virem e irem embora, sem tentar impedi-los, mas também sem alimentá-los.

No final da prática, reserve alguns momentos para saborear o calor e a alegria que resultam de uma mente mais calma.

 Passado algum tempo, os seus pensamentos se tornarão como um rio calmo e pacífico. Se você praticar esse exercício com regularidade, sua mente se tornará naturalmente serena, como um oceano calmo e tranquilo. Sempre que surgirem novos pensamentos, como ondas trazidas pelos ventos, não se deixe perturbar por ele; logo se dissolverão, de volta ao oceano.

OS HÁBITOS DA FELICIDADE

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