setembro 28

DEPRESSÃO?

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O conjunto dos ensinamentos do Buda provem da compaixão, do desejo de que todos os seres possam se livrar do sofrimento e de suas causas. No mundo de hoje, uma das formas mais opressivas e debilitantes de sofrimento é a depressão. Muito mais do que experiências fugazes de tristeza, a doença mental clinicamente diagnosticada, conhecida como depressão maior é incapacitante na medida em que interfere com a nossa capacidade de trabalhar, dormir, estudar, comer e desfrutar de atividades outrora prazerosas. A Organização Mundial de Saúde alerta que a doença mental está aumentando, e prevê que uma em cada quatro pessoas desenvolverá um ou mais transtornos mentais durante suas vidas. Até o ano 2020, a depressão deverá ser a causa de doença mais prevalente no mundo desenvolvido.

Para que a depressão seja tratada de forma eficaz, é preciso identificar as causas e circunstâncias específicas que contribuem para cada caso. Do contrário, existe o perigo de tratarmos cegamente seus sintomas sem resolvermos as causas subjacentes. De acordo com estudos recentes, é altamente improvável que a depressão resulte puramente de desequilíbrios químicos, exceto em raros casos de deficiências de vitaminas, acidente vascular cerebral e assim por diante. Além disso, a síntese de centenas de estudos indica que os antidepressivos não são mais eficazes no tratamento da depressão resultante desses tipos de causas do que no tratamento da depressão resultante de causas relacionadas ao estresse. Isto implica que a depressão é mais bem entendida como um transtorno mental, não como um distúrbio neurológico.

Acho útil traçar uma distinção entre estes dois tipos de transtornos. Doenças neurológicas, como o autismo, derivam principalmente de fatores biológicos objetivos, que por sua vez afetam a experiência subjetiva. Transtornos mentais derivam principalmente de processos mentais subjetivos, que por sua vez afetam o cérebro. Minha hipótese subjacente é de que a mente e o cérebro são causalmente relacionados, mas não são idênticos. As evidências sugerem que a depressão é mais bem compreendida como um transtorno mental e, portanto, a verdadeira cura deverá ser encontrada por meio do exame de suas principais causas psicológicas. Esta forma de distinção entre os transtornos mentais e os neurológicos ajuda a explicar porque o nosso conhecimento sobre o cérebro, embora em rápido crescimento, não resultou em um grau correspondente de progresso no desenvolvimento de medicamentos para tratar doenças mentais.

De acordo com a psicologia budista, a depressão maior não é considerada por si só uma “aflição mental” (klesha), mas é um sintoma das aflições subjacentes de hostilidade, desejo ardente e delusão. Todas as aflições mentais são caracterizadas por perturbar o equilíbrio da mente, resultando em um comportamento negativo, que por sua vez dá origem ao sofrimento, para nós e para os outros. A prática budista, composta pelo cultivo da ética,samadhi e sabedoria, destina-se a corrigir estas verdadeiras causas da miséria humana.

mente-humana2_c3a1rvoreSe buscarmos pelos processos psicológicos aflitivos que podem resultar em depressão dentro do contexto budista, veremos que os chamados Cinco Obstáculos, ou “obscurecimentos” desempenham um papel crucial. Estes incluem (1) o desejo e o apego aos prazeres hedônicos, incluindo os relacionados com a riqueza, poder e fama (resultando em frustração e ansiedade crônicas); (2) malevolência e ressentimento; (3) déficit de atenção e embotamento; (4) atenção e hiperatividade e culpa, e (5) a incerteza debilitante. O Buda declarou que, “Enquanto estes cinco obscurecimentos não forem abandonados, a pessoa deve-se considerar em dívida, doente, presa, escravizada e perdida em uma trilha no deserto” (Sāmaññaphala Sutta). Esta é claramente uma descrição de problemas de saúde mental, e isso implica uma característica fundamental e particular da visão de mundo budista, ou seja, que a mente de uma pessoa que está propensa a todos os obscurecimentos acima pode ser normal, mas não é saudável.

A depressão que se origina de qualquer um desses obscurecimentos é indiretamente aliviada com o cultivo da disciplina ética baseada na não violência e na benevolência, e diretamente abrandada com samadhi, ou atenção focada. Por meio do treinamento dosamadhi, incluindo o cultivo da atenção plena e da introspecção, aprende-se a superar a tendência habitual da ruminação negativa e a desenvolver uma sensação de bem-estar físico e mental, juntamente com o aumento da estabilidade da atenção e clareza. A eficácia curativa de tal prática meditativa é ainda mais aumentada com o cultivo das virtudes sublimes de bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade.

A delusão se encontra na raiz das aflições mentais de desejo ardente e hostilidade, e pode ser de dois tipos: inata e adquirida. As formas inatas de ilusão incluem os vieses cognitivos de ver o impermanente como permanente, confundir as verdadeiras fontes de sofrimento e de felicidade genuína, e reificar equivocadamente fenômenos internos e externos como “eu” e “meu”. Assim, com base no equilíbrio mental excepcional alcançado por meio da prática de samadhi, pode-se então engajar efetivamente na prática da meditação de insight, resultando na sabedoria libertadora de realizar a natureza da impermanência, do sofrimento e da ausência de identidade. Tal sabedoria serve como um antídoto direto para a depressão, curando suas causas mais fundamentais da compreensão equivocada da natureza da realidade.

É importante não confundir o transtorno mental da depressão com a tristeza e a desilusão que se originam do aprofundamento do insight sobre a natureza da realidade. A infelicidade poderá ser despertada, por exemplo, por um sentido pessoal de desencanto com a busca insatisfatória do prazer hedonista, ou pela simpatia opressiva pelo sofrimento e angústia dos outros, acompanhada de uma sensação de impotência para aliviar a dor.

mediateEssa tristeza pode servir como um elemento chave na busca de um modo de vida mais satisfatório, altruísta e autêntico, bem como de formas mais eficazes de colocar-se a serviço de outros. A meditação pode de fato despertar esse desânimo baseado na realidade, e a prática budista mais completa pode resultar em uma mudança significativa na visão de mundo, nos valores e no modo de vida que permite superar tal infelicidade a partir de sua origem.

No decorrer de nossas vidas, podemos compor nossas tendências delusórias inatas de má-compreensão da realidade, com os tipos de delusão que colhemos de nosso ambiente cultural e da educação. Em minha opinião, o materialismo científico é uma espécie de delusão adquirida, que domina a educação moderna, a investigação científica e a mídia popular. Esta é a visão de que toda a realidade consiste em nada mais do que massa-energia, espaço-tempo e suas propriedades derivativas. Os materialistas também comumente acreditam que apenas os processos físicos têm eficácia causal, o que implica que as únicas influências sobre o cérebro são as físicas. Esta crença ignora a eficácia causal de informações significativas, que não podem ser medidas por máquinas irracionais, mas podem ser detectadas pela inteligência consciente subjetiva.

Os únicos tipos de fenômenos naturais que os cientistas podem medir com seus instrumentos tecnológicos são os objetivos, físicos e quantificáveis. Mas os processos mentais, em contraste com suas expressões comportamentais e seus correlatos neurais, são subjetivos, não têm atributos físicos e são qualitativos. Portanto, eles são invisíveis aos métodos científicos de medição. Os materialistas, portanto, equiparam o que eles não podem medir, a experiência subjetiva, àquilo que podem medir. Isto implica uma espécie de “metodolatria” pela qual se assume que os métodos científicos de investigação em terceira pessoa constituem “o único e verdadeiro caminho” para a compreensão do mundo natural, enquanto desconsideram os insights e descobertas que podem ser feitos por meio da introspecção e investigação contemplativa em primeira pessoa. Portanto, rejeito ambas as abordagens excludentes para a compreensão da natureza, bem como suas conclusões reducionistas, já que não são validadas por evidências empíricas e nem pelo argumento lógico.

Os materialistas frequentemente equiparam pessoas a seus cérebros, os quais operam de acordo com as leis amorais e irracionais da física e da química. Muitas pessoas, inclusive eu, acham que essa crença não apenas é infundada por evidência empírica, mas também desumanizador, incapacitante e desmoralizante. A doutrinação neste sistema de crenças, especialmente quando é apresentado como sendo parte integrante de toda visão científica de mundo, pode ser uma importante causa indireta da depressão no mundo moderno. É fundamental observar que muitos cientistas não aderem aos princípios metafísicos do materialismo. Isto implica claramente que não são uma característica necessária do pensamento científico.

Mas há muitos pesquisadores no campo da saúde mental, que consideram todas as doenças mentais simplesmente como sendo doenças do cérebro, o que implica que a principal maneira de tratá-las é com medicamentos ou outras intervenções físicas. No “mundo desenvolvido”, onde o materialismo tem maior influência, as pessoas estão tomando mais comprimidos do que nunca, sendo que um em cada cinco adultos nos Estados Unidos estão tomando ao menos um medicamento psiquiátrico. Enquanto isso, a indústria farmacêutica gasta bilhões de dólares para aumentar suas vendas por meio da publicidade direta ao público, além de marketing dirigido aos profissionais de saúde mental. Seus esforços foram recompensados. Durante a década de 1996 a 2005, o número de americanos que tomavam antidepressivos dobrou de 13,3 para 27 milhões e, em 2008, as vendas de antidepressivos atingiram a impressionante cifra de US$ 9,6 bilhões só nos EUA. Milhões de pessoas estão claramente desesperadas pelo alívio da angústia.

imagesHá um preço alto a pagar por essa dependência das drogas em longo prazo, além da óbvia carga monetária, já que esses medicamentos tratam apenas os sintomas de quase todos os casos de depressão, resultando em dependência prolongada, com sua vasta gama de possíveis efeitos colaterais negativos. Enquanto a indústria farmacêutica afirma que os antidepressivos ajudam cerca de 75 por cento das pessoas, a falha de tais drogas para os 25 por cento restantes pode de fato levar a um desespero ainda maior, pois as pessoas concluem que têm danos neurológicos irreversíveis.

Cientificamente, é crucial determinar se os benefícios para a maioria de 75 por cento realmente resultam do tratamento com as drogas ou do efeito placebo. De acordo com um estudo publicado em 2002 no American Journal of Psychiatry, até 75 por cento da eficácia atribuída aos antidepressivos é realmente resultante do efeito placebo, que é uma designação incorreta para a eficácia da resposta consciente subjetiva a informações significativas. Outros estudos demonstram que quanto piores forem os efeitos colaterais, mais forte será o efeito placebo. Pacientes se convencem de que a droga que estão tomando é tão forte que causa náuseas e impotência, e então falsamente concluem que deve ser forte o suficiente para melhorar a depressão. Além disso, as pessoas que tomam antidepressivos são mais susceptíveis a recaídas quando o antidepressivo é descontinuado, quando comparadas a pacientes que se recuperam com um placebo e, em seguida, têm o placebo descontinuado.

A pesquisa histórica publicada no Journal of the American Medical Association em 2010 indica que os benefícios dos antidepressivos variam “de inexistentes a insignificantes” em pacientes com depressão leve, moderada e até mesmo grave, e que altas doses de antidepressivos são pouco mais eficazes do que doses baixas. Apenas em pacientes com sintomas muito graves (cerca de 13 por cento das pessoas com depressão), observou-se um benefício estatisticamente significativo com o tratamento. Consequentemente, espera-se que as vendas mundiais de antidepressivos, que atingiram o pico de US$ 15 bilhões em 2003, caiam agora para menos de US$ 6 bilhões até 2016.

Embora os cientistas cognitivos tenham reconhecido que os processos subjetivos mentais desempenham um papel importante na indução da depressão, a investigação científica sobre as causas e tratamentos da depressão, sob a disseminada e penetrante influência de crenças e metodologias materialistas, tem se concentrado principalmente em fatores físicos. Enquanto isso, os neurocientistas expressam a perplexidade de que, apesar do conhecimento do cérebro estar em rápido avanço, pouco progresso tem sido feito no desenvolvimento de medicamentos para suprimir os sintomas, e menos ainda, para curar doenças mentais, que os materialistas insistem não serem nada mais do que distúrbios cerebrais. Esta é a conclusão inevitável do lema reducionista, “a mente é o que o cérebro faz.” Seria fascinante ver uma pesquisa científica imparcialmente conduzida sobre os efeitos do reducionismo materialista sobre a depressão e outros transtornos mentais.

Em resumo, o fracasso em identificar e tratar as verdadeiras causas da depressão resultou em uma dependência excessiva de drogas e uma subutilização de métodos capazes de curar a partir da origem. Os medicamentos desempenham um papel importante no auxílio ao manejo dos sintomas de doenças mentais, incluindo transtornos de ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e depressão. Por exemplo, em casos de depressão muito grave, os antidepressivos ajudam a restaurar o equilíbrio emocional suficiente para que as pessoas possam se beneficiar de outras formas de tratamento, tais como terapia cognitivo-comportamental baseada em atenção plena. Mas como os transtornos mentais, da forma como os defini, contrariamente aos distúrbios neurológicos, são causados principalmente por fatores psicológicos subjetivos, ao invés de objetivos e biológicos, devemos nos voltar para a experiência em primeira pessoa, a fim de identificar suas verdadeiras causas.

Existe uma complementaridade maravilhosa entre as rigorosas metodologias da ciência moderna em terceira pessoa e as rigorosas metodologias do budismo e outras tradições contemplativas em primeira pessoa. Pela primeira vez na história humana, temos fácil acesso a ambos os sistemas de investigação, cada um com suas próprias forças e limitações. Considerando a realidade do sofrimento e de suas fontes e a urgente necessidade da humanidade de encontrar alívio para os transtornos mentais, é imperativo deixar de lado preconceitos ideológicos e metodológicos, tanto científicos quanto religiosos. Temos agora a oportunidade de integrar métodos contemplativos e científicos de investigação para oferecermos uma compreensão abrangente da existência humana, que inclua totalmente tanto os aspectos subjetivos quanto objetivos do mundo natural, sem reduzir um ao outro. Esta abordagem é uma grande promessa para curar as aflições do mundo moderno.

B. Alan Wallace, autor de Meditations of a Buddhist Skeptic: A Manifesto for the Mind Sciences and Contemplative Practice, é o fundador do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies. Monge budista por catorze anos, com doutorado em estudos religiosos pela Stanford University, tem ensinado filosofia e meditação budistas em todo o mundo desde 1976.

Texto publicado e traduzido por Jeanne Pilli.

Examinamos sinceramente nossa existência. Como está nossa vida? Quais foram até agora nossas prioridades e o que queremos para o tempo de vida que nos resta? Somos um misto de sombras e luzes, de qualidades e defeitos. Seria essa uma maneira de ser ideal, um fato inevitável? Se assim não for, o que fazer? Essas perguntas merecem ser feitas, sobretudo, se sentimos que uma mudança é possível e desejável.

Contudo, no Ocidente, devido às atividades que consomem, da manhã à noite, uma parte considerável de nossa energia, temos menos tempo para nos debruçar sobre as causas fundamentais da felicidade. Imaginamos que, mais ou menos conscientemente, quanto mais multiplicamos nossas atividades, mais as sensações se intensificam e mais nossa insatisfação é estancada. Na realidade, muito são aqueles que, ao contrário, se sentem decepcionados e frustrados com o modo de vida contemporâneo. Sentem-se desarmados, mas não veem outra solução porque as tradições que preconizam a própria transformação estão fora de moda. As técnicas de meditação visam transformar a mente. Não é necessário atribuir-lhes um rótulo religioso particular. Cada um de nós tem uma mente, cada um pode trabalhar com ela.

Matthieu Ricard 

“A meditação não é uma prática para tentar atingir o êxtase, bem-aventurança espiritual, ou tranqüilidade, nem é a tentativa de se tornar uma pessoa melhor. É simplesmente a criação de um espaço em que somos capazes de expor e desfazer os nossos jogos neuróticos, dos nossos auto-enganos, nossos medos e esperanças escondidas.”  Chogyam Trungpa

O caminho para sair da depressão

Palestra do Dharma da véspera de Ano Novo por Thich Nhat Hanh – 31 de dezembro de 2005

Nós temos o poder de reconhecer nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas emoções, nossas percepções. Nós não temos que suprimi-las. Mas nós queremos ter o tempo e o espaço para olhar para elas e as reconhecer tais como elas são. Esta é a prática básica. Fazer o que for preciso para ficar presente no aqui e no agora. Muitas vezes o nosso corpo está aqui, mas nossa mente está em outro lugar. Nossos filhos não sentem que estamos verdadeiramente presentes.  

Quando você vai a uma casa e você quer encontrar alguém nela, você pergunta, “há alguém em casa?”. E se alguém diz “sim”, então você ficará feliz. Você não quer ir a uma casa onde não tem ninguém. Muito frequentemente nós não estamos em casa. Estamos perdidos em nossos pensamentos, nossas preocupações, nossos projetos, nossa ansiedade, nosso medo. Nós estamos completamente perdidos. Não estamos lá para ficarmos a par do que está acontecendo. A prática oferecida a nós pelo Buda não é estar no piloto automático, mas a prática da consciência, da vida consciente. 

Se você está deprimido ou se você está com medo de entrar em depressão, é esta a saída. Se você puder ficar presente, se você puder identificar os tipos de sentimentos e pensamentos que são responsáveis pela sua depressão, você poderá ser livre. Você sabe que este tipo de pensamento, este tipo de sentimento causará uma recaída, e que a conscientização é o início da cura, da sua liberdade. Você não está com medo. Se você estiver realmente presente, pode permitir que os materiais difíceis venham para que você possa reconhecê-los. E você pode fazer algo para convidar os materiais maravilhosos a virem e ficarem com você, para lhe ajudar a processar os materiais que você precisa processar.

prazer-de-viver1Quando você cultiva milho, você tem milho para comer. Quando você cultiva trigo, você tem trigo para comer. Quando você cultiva entendimento e compaixão, você tem compaixão e entendimento, a base para sua própria paz, liberdade e felicidade. E para que você cultive entendimento e compaixão, você tem que estar presente. Entender nosso sofrimento, raiva e depressão é muito importante. Estar ciente do sofrimento e entender que nosso sofrimento é a porta para os domínios da felicidade. A menos que você entenda a natureza do sofrimento, a causa do sofrimento, você não verá nenhum caminho que leve à transformação do sofrimento em felicidade.

O Buda falou sobre as Quatro Nobres Verdades. A primeira é estar consciente do sofrimento. Olhando profundamente para a natureza do sofrimento, você encontra a segunda Nobre Verdade: a falta de entendimento, a falta de compaixão.

Há um caminho que leva ao sofrimento: o ignóbil caminho da visão incorreta, do pensamento incorreto, da fala incorreta, da ação incorreta. Há um caminho que leva à felicidade, à cessação do sofrimento: o caminho do pensamento correto, da visão correta, da fala correta e da ação correta. Nós somos capazes de parar, de deixar o caminho do sofrimento e começar a tomar o caminho da felicidade. Todos nós somos capazes de produzir o pensamento correto.

Suponha que você olhe para um monge e tem um pensamento de que talvez ele tenha dito algo para o Thay (monge, autor deste texto), e é por isso que o Thay não olhou para você esta manhã. Você sabe que este tipo de pensamento traz sofrimento porque é um pensamento incorreto. Mas se você está atento para o fato de que este pensamento pode levar à raiva, ao desespero e ao ódio, você está livre. Você diz a si mesmo: “Eu tenho que produzir outro pensamento que seja digno de um praticante. Thay pode ter uma percepção errônea e meu respeito, mas como ele é meu professor eu preciso ajudá-lo”.

A verdade é que seu professor pode não ter entendido mal você, mas no caso de ele ter realmente lhe entendido mal, você não se importa porque ele é seu professor. Você pode ajudá-lo a corrigir seu erro de percepção. E com isso você tem paz, tem amor. Este tipo de pensamento traz felicidade. Você não é uma vítima de seu pensamento.

Se você aprende a olhar as pessoas e a pensar deste modo, você sofrerá menos no mesmo instante. Você olha para seu parceiro, seu filho, sua filha, seu pai, com olhos de compaixão e entendimento. Mesmo que você veja um defeito naquela pessoa, mesmo que aquela pessoa tenha dito ou feito algo que o faz sofrer, você dirá que ele ou ela é uma vítima de percepções incorretas e você precisa ajudá-lo ou ajudá-la. Este tipo de pensamento irá libertá-lo de seu sofrimento. Você sabe que com a prática do ouvir profundo e da fala amorosa, pode ajudá-lo a corrigir a percepção incorreta. (…)

Talvez a resolução que você queira fazer hoje, no último dia do ano de 2005, (palestra realizada no final do ano de 2005) seja: “Eu decido que no próximo ano, começando amanhã, eu irei aprender a produzir pensamentos positivos e praticar o pensamento correto. Eu quero que meu pensamento vá na direção do entendimento e da compaixão. Mesmo que a pessoa na minha frente não esteja feliz, que esteja agindo e falando a partir de uma base de sofrimento, eu ainda sou capaz de produzir pensamentos na linha do pensamento correto.

E quando você faz tal resolução, está fazendo baseado na visão correta, porque ela é o fundamento do pensamento correto.

A visão correta nos diz que todos sofrem. E se as pessoas não sabem como lidar com seu sofrimento, dirão coisas ou farão coisas que fazem com as pessoas a seu redor sofram. Como um praticante, você não tem que sofrer, mesmo que a ação ou fala de outra pessoa seja negativa. Se você for capaz de tocar a compaixão e a visão correta dentro de você, você não sofrerá. Se você disser: “bom, eu tenho que ajudá-lo. Eu não quero puni-lo, eu quero ajudá-lo”. Este é o pensamento correto. E o pensamento correto faz com que você se sinta muito, mas muito melhor. Ele tem um efeito positivo na sua saúde e na saúde do mundo. 

Então eu faço o voto: “decido que amanhã, no início do ano de 2006, eu farei meu melhor para praticar o pensamento correto”. O pensamento correto consolida sua visão correta. A fala correta também ajuda você a consolidar sua visão correta.

O que é a visão correta? Quando você está totalmente presente no aqui e no agora, e observa seus pensamentos, sentimentos e emoções, você reconhece que eles são pensamentos, sentimentos e emoções; eles não são a realidade. Você não é absorvido por eles. Você mantém sua liberdade, e isso é muito importante. Mesmo se um pensamento negativo surgir, você está totalmente presente no aqui e no agora. Se você se lembrar que seu pensamento é apenas um pensamento, isso permitirá que sua sabedoria, sua compaixão seja acionada para ajudar você. Isso o manterá livre.

O Buda é alguém feito de plena consciência, concentração, e insight. Plena consciência, concentração, e insight te trazem liberdade. A prática da plena consciência o ajuda a viver sua vida. Plena consciência nos permite reconhecer os pensamentos negativos e tocar as coisas positivas, e nós podemos abrir a porta da plenitude em nós. A chave é ficar presente no aqui e no agora, e permitir a nós mesmos o tempo entrarmos em profundo contato com o que está acontecendo e não reagir de imediato do modo como sempre fizemos.

Há muitas coisas concretas que podemos fazer que poderão nos trazer muita felicidade e liberdade. Quando eu andar, eu ando de tal modo que cada passo pode me trazer liberdade. Eu não me perco andando. Eu não me perco no passado ou no futuro ou em meus projetos enquanto estou andando. Enquanto estiver andando, quero provar as maravilhas da vida. Há aqueles entre nós que são capazes de andar deste modo.

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Enquanto estiver respirando, seja em uma posição sentado seja em uma posição de pé, nós podemos respirar de tal modo que reconhecemos que estamos vivos, que estamos presentes. Nós podemos entrar em contato com as maravilhas da vida.

Enquanto estivermos comendo, sabemos que estamos totalmente presentes. Somos nós que realizamos o trabalho de comer e não a máquina. Nós não estamos no piloto automático. Estamos vivendo de modo consciente.

O maior sucesso, o mais significativo tipo de sucesso é a liberdade. Nós temos que lutar por nossa liberdade. E não é indo para algum lugar, ou para o futuro, que temos liberdade; é exatamente no aqui e agora. O modo de começar é ficar presente, ficar vivo, ser você mesmo em todos os momentos.

Quando você escova seus dentes, por exemplo, você pode escolher escová-los de tal modo que a liberdade, alegria e felicidade sejam possíveis. Você pode estar no paraiso escovando seus dentes, ou você pode estar no inferno escovando seus dentes. Isso depende do modo como você vive sua vida.

Liberdade é o solo para a felicidade, e o caminho da liberdade é o caminho da plena consciência. A prática da plena consciência como é apresentada em Plum Village é aprender como viver inteiramente presente a cada momento de sua vida diária. Este tipo de treinamento deve continuar se você não quiser cair no abismo do sofrimento e da depressão.

Young Woman Meditating on the Floor”Na prática da meditação, tendo desenvolvido um sentimento de confiança em nós próprios, lentamente esse sentimento vira-se para fora de nós e o mundo torna-se um local mais amigável, em vez de um mundo hostil. Poder-se-ia dizer que mudamos o mundo: tornamo-nos o Rei ou a Raínha do Universo. Mas por outro lado, não se pode dizer exactamente isso, porque o mundo devolveu-nos a cortesia, veio na nossa direcção para nos devolver a nossa amizade. No início, ele tentou todas as formas duras de lidar connosco, mas finalmente o mundo e nós próprios começamos a falar um com o outro, e o mundo torna-se um mundo real, completamente real, não mais uma ilusão ou um mundo confuso. É um mundo real. E nós começamos a apercebermo-nos das realidade dos seus elementos, da realidade do tempo e do espaço, da realidade das emoções – da realidade de tudo.”  Chögyam Trungpa Rinpoche

TROCANDO O ”EU” PELOS OUTROS: Transformando-nos nos outros. 

Geshe Lobsang Tenpa

Segundo o Budismo, para sermos felizes, temos de desenvolver um genuíno sentimento de amor pelos outros: temos de ser capazes de amá-los. Este pensamento, este sentimento – o de amor pelos outros – é a porta que abre as práticas Mahayanas. Todo sofrimento que experimentamos tem uma causa: e esta causa reside no pensamento egoísta, no pensamento de se preservar a si mesmo, de só pensar em si mesmo, de tirar vantagem para si, proveito para si mesmo em tudo e com tudo. Ou seja, só pensar em si mesmo, o tempo todo. O nosso real inimigo é esse tipo de carinho por si mesmo, de cuidado de si, de auto-piedade. Ou seja, o pensamento que diz sempre: “eu podia ter conseguido isso para mim”, “isso me aconteceu”, “fizeram isso comigo”, “o que há de errado comigo?”, “por que isso só acontece comigo?” Esse é o tipo de pensamento que gera a infelicidade: o de pensar em si mesmo.

Devemos desprezar o pensamento que pensa em si mesmo, abandonar esse tipo de pensamento, desprezar a idéia de cuidar apenas de si de modo auto-centrado e nos dedicar inteiramente em pensar nos outros. 

Não se trata de desprezar-nos a si mesmo, julgando-nos inferior: muito ao contrario, devemos desenvolver uma imensa autoconfiança na nossa capacidade de ir em socorro dos outros, de ser deles a salvação e o amparo.

Podemos começar pelas pequenas coisas, como anular nossas reações de resposta às agressividades do outro para conosco, quando o outro se encontra sob o poder dominador das aflições mentais. Isto a princípio parecerá muito difícil, como tudo que a princípio aprendemos, mas depois poderá nos parecer familiar. Podemos até sentir ódio, mas não demonstramos, mas anulamos imediatamente este ódio-resposta, de forma que aos pouco vamos nos tornando mestres de nós mesmos e de nossas reações. Todos os nossos problemas derivam de nós nos prezarmos demais, de pensarmos muito em nós mesmos, de estimarmo-nos demais a nós mesmos. Alimentamos este pensamento há muito tempo, há muitas vidas, que é o pensamento instintivo de preservação.

Todos os Budhas praticaram este treinamento de trocar o si-próprio pelos outros. Todos os Bodisatvas também realizaram isso. Eles continuam fazem isto: o cuidado para com os outros. Incontáveis vidas o Bodisatva praticou assim, antes de se tornar um Budha. E é muito importante ver e entusiasmar-se com os exemplos dos grandes Mestres que praticaram antes de nós: ou seja, não se importar com o que acontece ou acontecerá conosco mesmos, e sim com os demais. Não se dar muito valor… e ao mesmo tempo se considerar com a responsabilidade universal de assegurar o bem-estar do mundo. Este pensamento nos transformará num Budha.

Devemos começar pelas coisas mais simples, como ceder a vez numa fila, ou dar o seu lugar no ônibus. Devemos aprender a nos dedicar aos outros nos mínimos gestos, por exemplo, distribuindo sorriso e afeto genuíno. Mesmos os animais sentem quando nos aproximamos deles com afeto, com amor, com alegria de vê-lo, de encontrá-lo. 184514_623502581012925_1806917455_n

Agradar aos outros de forma genuína e amorosa acumula tudo que é positividade, acumula amigos e riqueza, felicidade e segurança. Agradar aos outros com genuíno amor nos leva a galgar os mais altos degraus.

É pela análise, é pela observação racional e minuciosa que podemos nos convencer das imensas vantagens que afinal colhemos pela prática de nos dedicarmo-nos ao amor genuíno e verdadeiro aos demais. São imensos os frutos, espirituais e até materiais. 

O egoísmo, tentando engrandecer o “eu”, contraditoriamente é o principal inimigo do “eu”. Quem se sente só, quem se sente isolado, é devido ao egoísmo que se sente só e isolado. Quem se dedica aos demais, quem se dá aos demais, tem muitos amigos, atrai muitos amigos. Esta pessoa passa a ser respeitada e amada por todos, pelos homens e deuses. Até pelos animais. A bondade é algo que se irradia e atinge os outros, e é algo que faz bem aos outros, que os outros sentem.

É por esta prática que se começa a desenvolver a chamada bodhicita, ou mente de iluminação. A Bodhicita é o desejo de atingir o estado de Buddha pelo bem de todos os seres. A Bodhicita é amor e compaixão. Amor se define pelo desejo de que o outro seja feliz. Compaixão se define pelo desejo de que o outro se liberte do sofrimento.

Algumas pessoas têm muito valor, muito saber, mas não são reconhecidas porque não desenvolveram a Bodhicita. Porque são egoístas. E como são egoístas, acumulam negatividades, geram negatividades e atraem negatividades para si. As pessoas egoístas não têm muitos amigos. Ao contrário, têm inimigos. Assim, o egoísta não consegue ajuda e socorro quando precisa, quando encontram problemas.

A nossa sociedade moderna se fundamenta no contrário, se baseia no egoísmo, no narcisismo. Por isso há muito sofrimento. O egoísmo gera ódio, o ódio é a raiz da guerra. Ao contrário, a nossa mente deve voltar-se para a maioria, para fora. Pensar na maioria nos faz crescer, como heróis. Por isso os Bodhisatvas são conhecidos como heróis. 

Pensar no mundo, na humanidade, sem ilusões, sem fantasia, mas começando pelos mais próximos – isto nos faz crescer, aumenta a nossa capacidade de amar e de nos libertar a nós mesmos e aos outros.

Por isso devemos nos concentrar em pensar constantemente nos outros e não no nosso egoístico eu. Um dos modos de treinamento é o esforço por desenvolver a equanimidade. Com equanimidade nós não fazemos diferença entre eu e você, entre amigos e inimigos, entre familiares e estranhos. Assim vemos que todos, como nós, querem a felicidade. E como nós também os outros buscam isso de diferentes maneiras. Nós também desenvolvemos a troca do eu pelos outros pelo raciocínio. Como nós, os outros também não querem o sofrimento, mas querem a felicidade.

É quando pensamos muito pouco em nós mesmos, e o tempo todo nos outros, que desenvolvemos a troca pelos outros, o trocar-se pelos outros.

O forte pensamento, o forte sentimento de beneficiar os outros, de que os outros estejam bem, é isso que se chama trocar a si pelos outros. É fazer sugir esse tipo de mente búdica, de mente de bodichita. Se o nosso trabalho, se a nossa mente for toda dirigida para o benefício dos outros nós seremos os principais benfeitores de nós mesmos e dos outros. Nós seremos incluídos.Aquilo que plantamos, colhemos. Quando plantamos para os outros, a riqueza vem abundante, automaticamente.

Quando só pensamos nisto, minuto a minuto, nós nos trocamos pelos outros. É esse treinamento da mente a prática mais sagrada. Quando dominamos essa técnica conseguimos gerar compaixão espontânea, amor espontâneo.

Os Budas são feitos da matéria da compaixão. Lentamente progredimos da pequena para a grande compaixão. Praticando diariamente. O esforço é necessário para atingir a experiência.

”A natureza do bodisatva resulta de uma história ensinada em que três pessoas estão andando por um deserto. Seca e sede, eles espiam um muro alto à frente. Eles se aproximam e circulam o muro, mas não tem entrada ou porta. Um sobe nos ombros dos outros, olha para dentro, gritando “Eureka” e pula para dentro. O segundo, em seguida, sobe e repete as ações do primeiro. O terceiro laboriosamente sobe o muro, sem assistência e vê um luxuriante jardim. Ele tem água fresca, árvores, frutos, etc. Mas, em vez de saltar para o jardim, a terceira pessoa salta de volta para o deserto e procura andarilhos do deserto para falar sobre o jardim e como encontrá-lo. A terceira pessoa é o Bodhisattva.”

Os votos de bodisatva não se referem a uma realização, mas a uma direção, a um rumo da intenção. Sejam quais forem as circunstâncias — nascimento ou morte, alegria ou tristeza — meu corpo, minha fala e minha mente seguem a direção da compaixão e do despertar. A cada momento, vou plantar sementes de bondade e libertação para mim e para todos os seres vivos

Expansão da consciência

As mãos e os outros membros do corpo são diversos e distintos,
Mas todos são um: o corpo, que precisa ser mantido e protegido.
Da mesma maneira, diferentes seres, em suas alegrias e tristezas,
São, como eu, todos um ao desejarem a felicidade.
O Caminho do Bodisatva 8 | 91 Shantideva (Índia, séc. VII)

samsarah-corpo-e-mente-conhecimento-interior-em-sao-paulo-1.jpgA maneira de refletir sobre a equanimidade é a seguinte. Podemos distinguir as várias partes de nossos corpos: mãos, pés, cabeça, órgãos internos e tudo mais. Contudo, em um momento de perigo, protegemos todos eles, não querendo que nenhum se machuque, considerando que formam um único corpo. Pensamos: “isto é o meu corpo”, e nos apegamos e protegemos isso como um todo, encarando-o como uma única entidade.

Da mesma maneira, todo o conjunto de seres nos seis reinos — que em suas diferentes alegrias e tristezas são como nós ao desejarem a felicidade e não desejarem o sofrimento — deve ser identificado como uma única entidade: o nosso “eu”. Devemos protegê-la do sofrimento exatamente como agora protegemos a nós mesmos.

Suponha que perguntemos a alguém quantos corpos ele tem. “Do que você está falando?”, ele responderia, “não tenho nenhum outro corpo além deste!”.

“Bem”, continuamos, “há muitos corpos que você deva cuidar?”. “Não”, ele dirá, “cuido apenas deste meu corpo”.

Isso é o que ele diria, mas o fato é que — quando fala sobre seu corpo — ele está apenas aplicando um nome a um conjunto de itens diferentes. A palavra “corpo” não se refere de verdade a um único e indivisível todo. Em outras palavras, não há porquê usar o nome “corpo” neste conjunto de itens e ser inadequado usá-lo para outra coisa. A palavra está amarrada, sem uma justificativa absoluta, a algo que é apenas um conjunto de componentes.

É a mente que diz “meu corpo”, e é com base nessa ideia de uma entidade única que são possíveis as noções de “eu”, “meu” e todo o resto. Além disso, é bem infundado o argumento de que é razoável aplicar o nome “eu” a este conjunto e não outro.

Por isso, se ensina que o nome “eu” pode ser aplicado a todo o conjunto de seres que sofrem.

É possível para a mente pensar: “eles são eu mesmo”. Se, identificado-os assim, a mente se habituar com tal orientação, a ideia do “eu” abrangendo os outros seres sencientes irá de fato nascer. O resultado é que a pessoa passará a cuidar deles do mesmo modo como cuida de si.

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943)

Ilusão do egoísmo

Já que eu e os outros seres somos Ambos iguais, ao desejarmos a felicidade,Qual é a diferença que nos distingue,Para que eu deva lutar apenas para o meu bem?Já que eu e os outros seres somos Ambos iguais, ao evitarmos o sofrimento,Qual é a diferença que nos distingue,Para que eu deva salvar apenas a mim e não os outros?

O Caminho do Bodisatva , Shantideva (Índia, séc. VII)

confusao-mental-e-ansiedadeJá que não há a menor diferença entre nós e os outros, por todos desejarmos a felicidade, que razão poderia haver para não trabalharmos pela felicidade dos outros? Não faz sentido a ideia de devermos trabalhar apenas para nós mesmos.

Do mesmo modo, não há a menor diferença entre nós e os outros, no sentido de que ninguém quer ter experiências de sofrimento. Então, que motivo há para falhar em proteger os outros do sofrimento? Não faz sentido o fato de lutarmos para proteger apenas a nós mesmos.

“The Nectar of Manjushri’s Speech”

[…] É mais importante meditar com mente amorosa em um único ser que tenha hostilidade e raiva de você do que meditar com amor em cem seres afeiçoados e simpáticos a você.

É mais importante lembrar por um momento que todas as coisas condicionadas são impermanentes, e não ficar mentalmente envolvido com as atividades desta vida, do que suportar dificuldades para obter os frutos mundanos.

É mais importante domar, mesmo que só um pouco, o espírito maligno da ego-fixação do que subjugar cem demônios lá fora.

É mais importante meditar um instante na natureza verdadeira, o não-eu, do que praticar virtude por cem anos fixado no ego.

É mais importante reconhecer por um momento a própria mortalidade do que perseguir estudo e erudição por cem anos desejando inteligência e fama.

É mais importante lembrar por um momento da dedicação aos seres sencientes e praticar virtude com humildade do que se engajar no Dharma e realizar ações corretas por cem anos desejando ser culto, reto e nobre para ganhar fama e vantagens.

Machig Labdron (Tibete, séc. XI)

A VERDADE DA DEPRESSÃO

Por Traleg Kyabgon Rinpoche

Estamos normalmente encantados com o mundo, sob o feitiço de entretenimento samsárica. Mas é quando estamos deprimidos, diz o Venerável Traleg Rinpoche, que podemos ver isso. A depressão é algo que todos nós experiênciamos. Para algumas pessoas, a depressão é leve, enquanto para outros é muito intensa e debilitante. 

Para algumas pessoas, dura por um curto período de tempo e depois desaparece, enquanto para outros, pode persistir durante muitos anos, ou até mesmo uma vida inteira. Geralmente pensamos em depressão como um estado terrível: é algo que acho que temos que superar, e nós escondemos dos outros. Isto é provavelmente porque quando sofremos de depressão, os nossos níveis de energia e motivação descem e tornamo-nos retirados, não comunicativos, irritados, ressentidos e, basicamente, muito difícil de ser respeitados. 

Há também muitas vezes uma grande quantidade de ciúme, raiva ou inveja misturados com a depressão, porque ver alguém que é feliz só torna a nossa depressão pior.

budismo-e-cultura-de-paz-lama-padma-samten-blog-sobre-budismoO ponto é que a depressão, em termos de seus sintomas, pode ser debilitante e paralisante por causa do que os budistas chamam de “emoções contraditórias” associado a ela. Quando estamos deprimidos, nossa auto-estima e auto-confiança despencam. Começamos a duvidar de nós mesmos. Começamos a pensar que nós nos tornamos um fracasso em tudo. Psicoterapeutas ocidentais dizem que você pode aprender as razões de uma pessoa para experimentar a depressão se você 
olhar para sua história biográfica ou biológicas.

Do ponto de vista budista, porém, o entendimento fundamental é que a depressão é baseada em nossas interpretações de situações de nossa vida, nossas circunstâncias, a nossa auto-concepções. 

Ficamos deprimidos por não ser a pessoa que queremos ser. Ficamos deprimidos quando pensamos que não tenhamos sido capazes de alcançar as coisas que queremos alcançar na vida. Mas a depressão não é necessariamente um mau estado de ser. Quando estamos deprimidos, podemos realmente ser capaz de ver através da falsidade e da natureza ilusória do mundo samsárica. Em outras palavras, não devemos pensar: “Quando estou deprimido minha mente é distorcida e confusa, ao mesmo tempo quando não estou deprimido eu estou vendo tudo claramente.”

Segundo o budismo, o mundo que percebemos, o mundo em que interagimos e vivemos é insubstancial. Através da experiência da depressão e desespero, podemos começar a ver as coisas com mais clareza e não menos claramente. Diz-se que estamos normalmente encantados ou deslumbrados com o mundo, como um feitiço colocado em nós pelo fascínio de excitações samsárica e entretenimento. Quando ficamos deprimidos, porém, começamos a ver através do que somos e capazes de cortar as ilusões do samsara. A depressão, quando trabalhamos com ela, pode ser como um sinal, algo que coloca um freio em nossos excessos e nos lembra a banalidade da condição samsárica, de modo que não seremos enganados a correr de volta para os velhos hábitos de novo. Ela nos lembra da futilidade insignificância, e não substancialidade da condição samsárica.

De acordo com o budismo, se não estamos convencidos da natureza ilusória da condição samsárica, seremos sempre divididos. Vamos ter um pé no reino espiritual e o outro no reino do samsara, nunca sendo totalmente capaz de fazer esse esforço extra. Nós não estamos falando, no entanto, sobre a depressão crônica ou clínica. Estamos falando sobre o tipo de depressão que nos faz parar e pensar e reavaliar nossas vidas. Este tipo de depressão pode nos ajudar em termos do nosso crescimento espiritual, porque nos faz começar a questionar 
a nós mesmos. Por todos estes anos podemos ter pensado: “Eu sou esse tipo de pessoa”, “Eu sou aquele tipo de pessoa”, “Eu sou uma mãe”, “Eu sou um engenheiro”, ou o que quer que seja. Então, de repente, o mundo desmorona. O tapete é puxado debaixo de nossos pés. 

Temos de ter experiências como essa para a nossa jornada espiritual ser significativa, caso contrário não seremos convencidos da natureza não-substancial do mundo samsárico. Em vez disso, vamos tomar o mundo da vida cotidiana como real. 

Com uma forma genuinamente construtiva de depressão, tornamo-nos abertamente em contato com nossas emoções e sentimentos. Sentimos a necessidade de dar sentido a tudo, mas de novas maneiras. Agora, fazer sentido do ponto de vista samsárico não funciona. Todas as velhas crenças, atitudes e maneiras de lidar com as coisas não funcionaram. 

Agora, fazer sentido de tudo, desde o ponto de vista samsárica não funciona. Todas as velhas crenças, atitudes e maneiras de lidar com as coisas não funcionaram. A pessoa tem que avaliar, dizer e fazer coisas de forma diferente, as coisas experiênciam diferentes. Que vem utilizando a depressão de forma construtiva. A depressão pode ser usada para limitar nossas necessidades naturais a perder o controle, para se distrair e estar externamente dirigido, dispersando nossa energia em todas as direções. O sentimento de depressão sempre nos lembra de nós mesmos, que nos impede de tornar-se perdidos em nossas atividades, em nossas experiências disso e daquilo. 

Uma forma genuinamente construtiva de depressão nos mantém vivos em contato com nossos sentimentos. Nesse sentido, uma forma modesta de depressão é como um estado de equilíbrio mental. Tudo o que a experiência normalmente experimenta é a partir de um ponto egoísta ou narcisista de vista. Mas uma forma construtiva de depressão tira a impetuosidade, a segurança e as formas ilusórias de auto-confiança que temos. Quando estamos deprimidos, em vez de pensar com tanta confiança: “Eu sei o que está acontecendo, eu sei onde as coisas estão”, somos forçados a ser mais observadores e questionar nossas suposições, atitudes e comportamentos. É isso que temos que fazer, se quisermos progredir no caminho espiritual. O indivíduo é, então, aberto a novas formas de fazer as coisas, novas e criativas maneiras de pensar. Como os ensinamentos budistas dizem, temos de andar com a vida, temos que evoluir. A própria vida é um processo de aprendizagem e só podemos evoluir e aprender quando estamos abertos. Estamos abertos quando questionamos as coisas, e nós só questionamos as coisas quando estamos conscientes de nossas imperfeições, tanto quanto de nossas habilidades. Estar consciente do que não sabemos é mais importante do que estar ciente do que nós sabemos: concentrar no que não sabemos, nós estaremos sempre curiosos e querem aprender. E nós queremos saber se existe essa experiência de depressão ligeira, que em tibetano é chamado yid tang skyo pa, que tem a conotação de estar cansado de tudo o que é irreal, de tudo que é falso e ilusória. O clima de depressão pode, de fato, impulsionar-nos para a frente.

“A depressão é em si só uma manifestação direta sintomática da secularização radical da sociedade humana. Anterior à modernidade secular, a depressão era um fenômeno muito menos prevalente. E quando foi experimentado, as razões eram mais claramente ambiental e causal do que são agora. No passado, a depressão era diretamente associada a um evento específico ou ocorrência na vida da pessoa que diretamente causou a depressão. Hoje, no entanto, um número crescente de pessoas deprimidas estão experimentando depressão mais generalizada, um tipo de angústia existencial geral, a causa exata da que é difícil para eles identificar. Algumas das principais causas de depressão hoje incluem uma sensação de falta de sentido;. medo generalizado; crises espirituais, e os altos níveis de estresse e ansiedade, que se tornou aceito como normal no moderno, radicalmente secularizada, vida cotidiana. a cura definitiva para a crise atual da sociedade de depressão e falta de sentido é a re-abraçar uma vida de significado, uma vida de Dharma …. ”  Sri Dharma Acharya Pravartaka

 

CONFIRA TAMBÉM O POST ”COMO E PORQUE SURGEM EMOÇÕES, E COMO DESENVOLVER A CONSCIÊNCIA DESPERTA”.

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