outubro 15

”BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO”?: Ditos popularescos que revelam a doença da ignorância e do autocentramento.

Nos últimos dias, foi divulgado um vídeo na internet de um assalto onde um ladrão roubava uma moto de uma pessoa, um policial viu a cena, tentou render o bandido porém foi necessário atirar nele para detê-lo. A ação do policial foi coerente e necessária. Porém, como muitas vezes acontece, as redes sociais ”fervem” e por todos os lados, seres dominados pelo ódio e pelo autocentramento despejam frases de efeitos de telenovelas como ”Deveria ter matado”. ”Bandido bom é bandido morto!’ ou ”Vagabundo não merece viver”.  Muitas destas pessoas se dizem ”gente de bem” enquanto o outro é o ”mal”, a famosa dualidade irredutível.  Porém a ”pessoa de bem” esta desejando a morte de outro ser, seria isso certo? Convido a todos a lerem o ensinamento abaixo e refletir sobre:

reflexo DE SI MESMO 3

Não somos crianças inocentes vitimadas por um grande mundo malvado. Se nosso mundo é grande e mau, nós o fizemos dessa maneira.Nossa ignorância é não ver que nós somos o outro. A violência não é um objeto permanente, imutável e fixo. É um estado da mente, uma expressão da ignorância. Não tem mais solidez que uma nuvem. Esse tipo de pensamento de homem das cavernas presente tem que mudar se não simplesmente só aumenta o que já ocorre, ciclos e ciclos de violência, ódio gerando odio e morte gerando morte, gente se achando superior a outras e justificando derramamento de sangue.

Monstros não existem, assim como não existem seres humanos que são santos e plenamente perfeitos. Quando examinamos um indivíduo que caiu nas garras do ódio, da raiva e da agressividade, e está à mercê da violência e crueza desses excessos, devemos vê-lo mais como um doente do que como um inimigo. Alguém que deve ser curado. Se um paciente ensandecido ataca seu médico, este deve controla-lo e dar tudo de si para curá-lo, sem se deixar levar pelo sentimento de ódio recíproco. Não esperamos que um médico comece a bater em seus pacientes. É importante, assim, não confundir a repulsa e o desgosto diante de um ato abominável com a condenação irrevogável e perpétua de uma pessoa. É claro que o ato não se realiza sozinho, mas apesar de essa pessoa agora estar pensando e se comportando de uma maneira extremamente nociva, mesmo o mais cruel dos torturadores não nasceu cruel, e quem sabe o que ele pode se tornar daqui a vinte anos? Quem pode afirmar com certeza que ele não mudará? Um amigo falou-me sobre um presidiário que estava detido em uma prisão americana para criminosos reincidentes. Era um daqueles que matam os próprios colegas dentro da cela. Esse detento certo dia decidiu participar de algumas sessões de meditação oferecidas no presídio, para passar ao tempo. Eis o seu testemunho: “Um dia, senti como se um muro desabasse dentro de mim. Eu me dei conta de que até aquele momento nunca tinha pensado ou me comportado de outro modo senão recorrendo à violência, como se estivesse louco. Bruscamente compreendi a desumanidade das minhas ações e comecei a olhar para o mundo e para as outras pessoas sob uma luz totalmente diferente”.

Durante um ano, ele lutou para agir em um plano mais altruísta e encorajou seus pares a renunciar à violência. Depois o assassinaram, com um caco de vidro, em um banheiro da prisão. Vingança por um crime passado. Transformações como essa só são raras porque em geral não oferecemos aos presidiários as condições que as tornariam possíveis. Assim como um indivíduo pode tornar-se vítima do ódio, uma sociedade inteira também pode. No entanto, é possível remover o ódio da mente das pessoas. Podemos poluir um riacho, mas também podemos purificá-lo, tornando sua água novamente potável. Sem a possibilidade de transformação interior, seríamos pegos por um desespero autodefensivo, privados de qualquer esperança. Segundo um ditado budista: “A única coisa boa do mal é que ele pode ser purificado.” Os seres humanos podem mudar e, se alguém mudou realmente, o perdão não é uma indulgência para com os seus atos passados, mas o reconhecimento daquilo em que ele se transformou. O perdão está intimamente ligado à possibilidade de transformação humana.

safe_imageHá uma crença amplamente difundida de que responder ao mal com violência é uma reação “humana” ditada pelo sofrimento e pela necessidade de “justiça”. Mas a humanidade genuína não deveria evitar reagir com ódio? Após o ataque a bomba que fez centenas de vítimas em Oklahoma City, em 1995, perguntaram ao pai de uma garotinha de três anos que morreu no atentado se ele gostaria que o principal autor do ataque, Timothy McVeigh, fosse executado. Ele respondeu com simplicidade: “Outra morte não vai cessar a minha dor.” Uma atitude assim não tem nada a ver com fraqueza, com covardia ou com qualquer tipo de transigência. É possível ter uma sensibilidade aguda ao caráter intolerável de uma situação e à necessidade de repará-la, sem no entanto ser movido pelo ódio. Podemos neutralizar uma pessoa ruim e perigosa por todos os meios necessários (incluindo aqui a violência se nenhum outro meio é possível), sem perder a vista que ela não é mais do que uma vítima dos seus próprios impulsos. O que nós próprios seremos se não conseguirmos evitar o ódio? Como disse Gandhi: “Se praticarmos o olho por olho, dente por dente, logo o mundo inteiro estará cego e desdentado”. Em vez de aplicar a lei da retaliação, não seria melhor aliviar a sua mente do ressentimento que a corrói? Mesmo sendo raras essas mudanças radicais de rumo – só um dos indicados em Nüremberg, Albert Speer, arrependeu-se das suas ações – não há razão para não termos esperança de que aconteçam. Conheci, na Índia, na província de Bihar, um homem que cometeu um assassinato sórdido na sua juventude e que, liberado da prisão depois de dez anos, se consagrou inteiramente a cuidar de leprosos. Não somos crianças inocentes vitimadas por um grande mundo malvado. Se nosso mundo é grande e mau, nós o fizemos dessa maneira. Isso é o que o Buda ensinou. O “outro” é um bicho-papão infantil, a projeção de nossos próprios medos em um objeto assustador de nossa imaginação, que nos aterroriza. Nossa ignorância é não ver que nós somos o outro. Não podemos nos permitir confundir inocência com essa ignorância. O ódio amplifica os defeitos daqueles que são seu objeto e ignora suas qualidades. Como observa Aaron Beck: “Percepções e pensamentos distorcidos se estabelecem na mente, em resposta a uma ameaça, seja ela real ou imaginária. Esse enquadramento rígido, a prisão da mente, é responsável por grande parte do ódio e da violência que nos assola”.


A mente, obcecada pela animosidade e pelo ressentimento, fecha-se na ilusão e persuade-se de que a fonte da sua insatisfação reside fora dela. Ao pensarmos que estamos sendo tratados com injustiça ou ameaçados, concentramo-nos apenas nos aspectos negativos de uma pessoa ou de um grupo. Não conseguimos ver as pessoas e os eventos no contexto de uma rede muito mais ampla de causas e efeitos inter-relacionados. Ao formarmos a imagem do “inimigo” como alguém vil ou desprezível, generalizamos até incluir a pessoa ou o grupo inteiro. Solidificamos os atributos “maus” ou “repugnantes” que enxergamos naquele momento como sendo traços permanentes e intrínsecos da pessoa e nos afastamos da possibilidade de reavaliar a situação. Temos, assim, justificativa para expressar a nossa animosidade e nos vemos no direito de retaliar.

A hipocrisia também pode fazer com que sintamos a necessidade de “limpar” nosso entorno, a nossa sociedade, ou o mundo em geral, desse “mal”. Daí vem a discriminação, a perseguição, o genocídio, a retaliação cega e também a pena de morte – a suprema retaliação legal. Chegando a esse ponto, obscureceu-se a benevolência básica que faz com que apreciemos a aspiração, comum a todos, de evitar o sofrimento e obter a felicidade.

O único alvo ou objeto que continua sendo possível para o ódio é o próprio ódio. Odiar o ódio: este é o inimigo pérfido, obstinado e inflexível que incansavelmente transtorna e destrói vidas. Por mais apropriada que a paciência sem fraqueza possa ser diante daqueles que consideramos nossos inimigos, é totalmente inadequado ser paciente com o nosso próprio ódio, independentemente das circunstâncias. Como disse Khyentse Rimpoche: “É hora de redirecionar o ódio para longe dos seus alvos habituais, os nossos assim chamados inimigos, e voltá-lo contra ele mesmo. É o ódio o seu inimigo verdadeiro e a ele que você deve destruir” De nada adianta tentar reprimi-lo ou revertê-lo, devemos ir às suas raízes e arrancá-las de uma vez. Vejamos mais uma vez as palavras de Etty Hillesum: “Eles falam de extermínio. É melhor exterminar o mal dentro de um homem do que exterminar o próprio homem”.  Assim, ela confirma, doze séculos mais tarde, as palavras do poeta budista indiano Shantideva: “Quantos malfeitores matarei? O número deles é infinito como espaço. Mas se eu matar o espírito do ódio, todos os meus inimigos serão mortos de uma só vez.” 

Seria possível uma atitude como essa se um criminoso entrasse na sua casa, estuprasse a sua esposa, matasse o seu filhinho, e fugisse sequestrando a sua filha de dezesseis anos? Por mais trágica, intolerável e odiosa que seja uma situação, a questão que surge inevitavelmente é está: o que fazer depois disso? A vingança não é, de modo algum, a solução mais apropriada. Por que não?, perguntarão aqueles que sentem uma propensão irresistível para exigir reparação pela violência. Porque a longo prazo ela não pode nos trazer bem-estar e paz duradouros. Em nada ela nos consola e alimenta ainda mais a violência. Não faz muito tempo, na Albânia, a tradição da vendeta exigia que um assassinato fosse vingado com a morte de todos os membros homens da família inimiga, mesmo se isso demorasse anos, e com a proibição extensiva a todas as mulheres desse clã de se casarem, com o objetivo único de erradicar a linhagem inimiga.

  Como disse Gandhi: “Se praticarmos o olho por olho, dente por dente, logo o mundo inteiro estará cego e desdentado”. Em vez de aplicar a lei da retaliação, não seria melhor aliviar a sua mente do ressentimento que a corrói? Mesmo sendo raras essas mudanças radicais de rumo – só um dos indicados em Nüremberg, Albert Speer, arrependeu-se das suas ações – não há razão para não termos esperança de que aconteçam. Conheci, na Índia, na província de Bihar, um homem que cometeu um assassinato sórdido na sua juventude e que, liberado da prisão depois de dez anos, se consagrou inteiramente a cuidar de leprosos.

Você não deve odiar aqueles que fazem coisas erradas ou prejudiciais, mas com compaixão, você deve fazer o que você pode para detê-los – porque eles estão prejudicando a si mesmos, bem como aqueles que sofrem de suas ações. Dalai Lama

   Reagir espontaneamente com raiva e violência quando algum mal foi perpetrado ou algum dano infligido é, às vezes, considerado heroísmo, mas na verdade aqueles que se mantêm livres do ódio manifestam coragem muito maior. Um casal de americanos, ambos advogados, foram para a África do Sul, em 1998, para comparecerem ao julgamento de cinco adolescentes que, de maneira selvagem e gratuita, tinham matado a filha deles em plena rua. Eles olharam nos olhos dos assassinos e disseram: “Não queremos fazer com vocês o que fizeram com a nossa filha”. Não eram pais insensíveis, mas perceberam a inutilidade de perpetuar o ódio. Nesse sentido, o perdão não é desculpar o erro que foi cometido, mas desistir da ideia de vingar-se.

 Miguel Benasayag, escritor, matemático e psiquiatra, passou sete anos nas prisões dos generais argentinos, inclusive longos meses na solitária. Foi torturado muitas vezes, a ponto de ser totalmente tomado pela dor. “O que eles estavam tentando”, disse-me, “era fazer com que nos esquecêssemos da própria noção de dignidade humana”. Sua esposa e seu irmão foram jogados de um avião no oceano. Seu enteado foi dado a um oficial de alta patente, uma prática comum naquela época, com as crianças daqueles que se opunham ao regime. Vinte anos mais tarde, quando Miguel encontrou o general que havia adotado seu enteado, viu-se incapaz de odiá-lo. Ele percebeu que, naquelas circunstâncias, o ódio não fazia nenhum sentido e não remediaria nada, nem contribuiria para coisa alguma.

  Em geral a nossa compaixão e o nosso amor dependem da atitude benevolente ou agressiva que os outros tenham para conosco e aqueles a quem amamos. Por esse motivo é tão difícil sentirmos compaixão por aqueles que nos fazem mal. A compaixão budista, no entanto, se baseia no desejo sincero de que todos os seres, sem exceção, sejam liberados do sofrimento e de suas causas, particularmente do ódio. Podemos ir ainda mais longe, movidos pela aspiração altruísta de que todos os seres, inclusive os criminosos, possam encontrar a felicidade.

 Estudos sobre o perdão mostraram que nutrir um sentimento perene de ressentimento para com um malfeitor sem nunca perdoar, assim como vingar-se daquela pessoa, não restauram a paz de espírito nem nas vítimas, nem em seus parentes. Ao contrário, mostrou-se que o perdão, no sentido da renúncia ao ódio pelo criminoso, tem de longe o melhor efeito no que tange à restauração de alguma forma de paz interior.

 Quanto à pena de morte, sabemos que ela não é sequer um recurso inibidor eficaz. Depois que foi eliminada na Europa não houve qualquer aumento nas taxas de criminalidade, assim como seu restabelecimento, em alguns estados americanos, tampouco causou queda nesses mesmos índices. Como a prisão perpétua já basta para evitar que um assassino cometa mais crimes, a pena de morte não passa, então, de uma forma legalizada de vingança. Seja um assassinato ou execução legal, qualquer matança é um erro.

Ouvi uma vez na televisão japonesa um político dizer a um de seus opositores em plena sessão da assembleia nacional: “Que você possa morrer um milhão de vezes!” Para aquele que não pensa em outra coisa senão na vingança, mesmo que um inimigo pudesse morrer um milhão de vezes isso não seria suficiente para fazê-lo feliz. A razão é simples: o objetivo da vingança não é aliviar a nossa dor, mas infligir sofrimento aos outros. Como ela poderia nos ajudar a reencontrar uma felicidade perdida? Já quando renunciamos à sede de vingança e ao ódio, muitas vezes, como num passe de mágica, a montanha de ressentimento desmoronar.

A sociedade não precisa de um tipo de perdão que reflita falta de interesse tolerância ou, ainda pior, endosse o mal que foi cometido contra alguém. Isso deixaria a porta aberta para que os mesmos horrores voltassem a acontecer. A sociedade precisa de um perdão e de uma cura tais que os rancores, a maldade e o ódio não seja perpetuados. O ódio devasta a nossa mente e nos leva a devastar a vida os outros. Perdoar significa quebrar o ciclo do ódio.

Não há outro remédio senão a tomada de consciência pessoal, a transformação interior e a perseverança. O mal é um estado patológico. Uma sociedade doentia, que tenha se transformado em vítima da fúria cega contra outra parte da humanidade, mas não passa de um grupo de indivíduos alienados pela ignorância e pelo ódio. Mas quando um número suficiente de indivíduos atinge uma transformação altruísta, a sociedade pode se desenvolver na direção de uma atitude coletiva mais humana, integrando às suas leis o repúdio ao ódio e à vingança, abolindo a pena de morte, promulgando o respeito pelos direitos humanos e estimulando a responsabilidade universal. Mas é preciso não esquecer que não haverá desarmamento exterior sem desarmamento interior. Cada um de nós e todos nós devemos mudar, e esse processo começa dentro de nós mesmos.

Textos majoritariamente retirados de ”Felicidade – A pratica do Bem Estar”. 

A solução de conflitos: […] Então, iremos nos enfurecer contra a pessoa que nos agride? Se refletimos bem, essa pessoa está consumida por uma chama de raiva cuja fonte é a ignorância. Ela perdeu todo o controle de si mesma. Na verdade, essa pessoa é um objeto de compaixão, tanto quanto um doente, um escravo. Não se pode realmente ter raiva dela. Em última análise, o verdadeiro inimigo, em relação ao qual nenhuma piedade é permitida, é a própria raiva.

Jean-François – Sim, mas nisso você está esquecendo um pouco o lado prático …é possível que, antes mesmo de ter tempo de fazer esse brilhante raciocino, você seja espancado pela pessoa e passe desta para melhor! Portanto…

– O melhor, claro é evitar o enfrentamento neutralizando o agressor ou então fugindo, o que não exclui utilizar todos os meios apropriados e todo o vigor necessário, mas nunca com ódio. No mais profundo de si mesmo, é preciso conservar uma compaixão invencível e uma paciência inesgotável. Não se entregar passivamente à mercê dos que nos agridem nem tentar destruí-los pela força, pois sempre aparecerão outros, mas sim de descobrir que o inimigo principal a ser combatido sem complacência é o desejo de prejudicar. É isso o que se precisa compreender e, na medida do possível fazer outros compreenderem”  (O Monge e o Filosofo. Jean-François e Matthien. 1994, p.38)

images (9)Um documentário sobre a meditação vipassana em um presídio da Índia e seu poder de transformação. O filme relata uma experiência ocorrida no Presídio de Tihar, Nova Déli, 1993 e em diversas prisões da India, com aplicação da técnica de Meditação Vipassana, com o intuito de abrandar o sofrimento dos presos, que obtiveram resultados significativos para suas vidas e para o convívio com a realidade da prisão, tornando-os pessoas mais positivas para o retorno à sociedade. O filme demonstra como a prática da meditação silenciosa e da auto-observação pode auxiliar a uma melhor compreensão de si-mesmo e da realidade ao seu redor, melhorando a qualidade de nossas vidas e de todos que convivem conosco.

A técnica acabou por levar ao quase aniquilamento da reincidência, corrupção e uso de drogas nos presídios onde está funcionando. Em razão do sucesso imediato, foi estendida aos funcionários do estabelecimento e proporcionou a proliferação de cursos periódicos em uma área especialmente criada para reflexão. A transformação modelar da prisão Tihar, nos últimos 13 anos da experiência, acabou fazendo-a referência para outros presídios indianos.

CLIQUE AQUI, E CONFIRA O DOCUMENTÁRIO ”Tempo de Espera, Tempo de Vipassana”.

 

É muito comum escutarmos que tal pessoa tem o gênio forte, porque não leva “desaforo para casa”.

Ou então, que se nosso “orgulho” for ferido, devemos devolver o insulto com a mesma intensidade.

Não agir desta forma é visto como uma covardia, uma fraqueza, falta de personalidade.

Tomou-se como “ponto de honra” a necessidade de retribuir-se o mal com o mal. O resultado é que a cada dia aumenta a violência em todos os setores.

Não percebemos, mas contribuímos diariamente para que isso se propague.

Se analisarmos nosso cotidiano, veremos que tanto em nossa casa, no trabalho e até no lazer nos melindramos por qualquer discordância de ponto de vista. Também não deixamos que a opinião que emitimos seja contrariada; que nossos desejos, às vezes absurdos e egoístas, sejam ignorados.

Ai daquele que se opuser às nossas vontades! Mesmo que seja só em pensamento, passamos a desejar que aquela pessoa passe por poucas e boas. Sentimos uma estranha satisfação quando alguém que não gostamos ou nos desentendemos sofre dificuldade. Só isso já demonstra o que realmente temos dentro de nós: egoísmo.

Há casos, então, em que a vingança se torna patente. É o que acontece quando tomamos conhecimento de crimes hediondos. O primeiro sentimento é de desejarmos que o indivíduo sofra na própria carne a dor que fez ou outros passarem. Então, passamos a ser cúmplices da violência, incentivando-a inconscientemente.

Com isso, no quê nos diferenciamos dos animais?

A vontade de ver a justiça sendo feita muitas vezes nos torna injustos. Isso porque a visão da realidade que nos cerca pode ser distorcida por uma série de fatos, que vão desde o desconhecimento dos motivos do que está ocorrendo até a manipulação de informações.

Desencorajar a vingança não significa ser conivente com o mal. Pelo contrário, mostra a necessidade de combatermos a maldade com razão e não com o ódio e a emoção que cegam e destroem.

Matthieu Ricard.

”Se a sua motivação de ajudar a todos é verdadeira, você deve reduzir a negatividade e aprender a cultivar o mesmo amor e compaixão por todos os seres. Isso significa que é necessário ajudar tanto a vítima quanto o agressor.

Na iminência de um assassinato, temos o impulso de defender a vítima, mas o ideal seria também ter compaixão pelo agressor, tentando protegê-lo das consequências do ato de matar. Consumado o assassinato, logo ele estará isolado de todas as pessoas que o conhecem e amam, destruirá a própria vida e as suas chances de felicidade. Ao pensar apenas no momento, ele não tem ideia daquilo que o aguarda, um grau de sofrimento que não desejaríamos para ninguém.

Portanto, por mais difícil que pareça, devemos cultivar a mesma compaixão pelo agressor e pela vítima. Um está sofrendo agora; o outro sofrerá no futuro. A compaixão equânime é, verdadeiramente, a grande compaixão.

Da mesma maneira, no contexto da paz mundial, desejamos proteger aqueles que são assolados pela guerra; entretanto, os que a fomentam sofrerão inevitavelmente as consequências negativas de suas ações. Pode ser muito difícil sentir compaixão pelos agressores devido ao seu poder e arrogância, e pelo sofrimento terrível que infligem. Mesmo assim, precisamos incluir os que promovem a guerra e as suas vítimas no mesmo abraço compassivo. Seja em nome da paz ou da guerra, o apego e a aversão são tóxicos e maculam qualquer método de intervenção.”

Chagdud Tulku Rinpoche, em “Para abrir o coração“

Continue seu treino da mente, também assistindo o vídeo abaixo: 

CONSIDERE TAMBÉM, LER OS 4 POSTS ABAIXO:

DISTINÇÃO ENTRE O QUE FAZEMOS E O QUE SOMOS

RAIVA, AVERSÃO E ÓDIO

 ”TODAS AS EMOÇÕES NEGATIVAS SE BASEIAM NA IGNORÂNCIA”.

VINGANÇA, FILHA DA IGNORÂNCIA.

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